Quarta-feira, 3 de Junho de 2009

surpresas

Então ele veio me visitar pela primeira vez depois de saber de meu status. Entrou no carro todo feliz, com uma excitação na voz que aceleradamente tentava expressar um grande fluxo de idéias e sentimentos. Disse que na noite anterior, depois de nos falarmos ao telefone, ligou a tv e estava passando o documentário do Stephen Fry, Hiv and Me (post sobre este doc aqui). "Ele é um cara do seu tempo, ele está ligado na contemporaneidade... e esta é uma doença contemporânea, temos que conviver com ela e aceitá-la até mesmo para poder combater sua propagação. Eu posso estar contaminado e nem saber, qualquer um pode!" Ele sempre consegue me surpreender! Conversamos um bocado sobre o Fry e esta questão toda, um papo que rolou naturalmente e com muito carinho de parte a parte. Ele estava certo de sua escolha: estamos juntos nessa. 

No restante do tempo, tudo fluiu naturalmente, até o sexo foi bem natural e sem neuras. Mas um dia de manhã, ao acordar, ainda de olhos fechados ele falou: "Se eu estiver positivo você vai me ajudar, me orientar como lidar com isso?" Atonitamente, perguntei: "Por que você está falando uma bobagem dessas?  Por que esse assunto agora?" E ele: "Nada, apenas penso que pode ser uma possibilidade, a gente nunca sabe...."

Não fiquei com mosca atrás da orelha até porque nosso diálogo não deixa muita margem para pirações e mensagens subliminares, então deixei rolar.

Contudo, se todos tivessem a consciência da importância de fazer o exame anti-hiv e saber seu status, com certeza muita coisa poderia mudar na progressão desta pandemia. Eu fiquei sabendo num exame de rotina, jamais esperaria um resultado positivo àquela altura. Imagino que muitas outras pessoas poderiam igualmente se surpreender e poder lidar com o problema, acompanhando a progressão da doença e evitando o pior. C. me prometeu que vai fazer o exame em breve.

Voltando ao Rio, ele foi ao clínico que atende sua família para ver uma gripe persistente e pegar pedido para o exame. Eu não sei o que o médico falou, mas detonou alguma crise nele. De alguma forma, a reação do médico fez com ele que ficasse pirado mas ele não me falou nada (passada a crise, ele só conseguiu me dizer que o médico foi "moralista").

Sem transparecer nada para mim, sem me contar nada, ele lidou sozinho com essa crise até ir ver o terapeuta dele, dois dias depois. Talvez por também ser médico, mas certamente por ter uma empatia maior com C. e não ser tão "moralista", ele conseguiu ajudá-lo a colocar a cabeça em ordem. Só então, na véspera de voltar a me ver, C. me contou que algo havia se passado, mas não entrou em maiores detalhes. Pedi que, sempre que possível, ele se abrisse comigo e falasse sobre os medos e anseios que pudessem surgir em relação ao meu status e nosso relacionamento. Mas também falei que nem sempre é possível lidar com esses conteúdos em tempo real.

Foi quando eu soube que ele teve dois sonhos (que não quis me contar em detalhes) e que ele havia se sentido incomodado porque depois de saber de meu status, ele mudou um pouco seu comportamento na cama comigo -- o que reparei e achei absolutamente normal, mas ele ficou incomodado talvez por achar que deveria ter sido mais natural -- o que neste contexto quase significaria ser menos zeloso.

Quando nos revimos, nosso reencontro correu muito naturalmente, passamos o dia juntos, estivemos em Campos do Jordão onde comemos um fondue super romântico, passamos momentos ótimos sempre conversando muito e se curtindo muito, mas não chegamos a tocar no assunto em nenhum momento. À noite, quando voltamos para casa, uma surpresinha para mim: uma sacolinha de presente cheia de camisinhas com sabor. Fiquei muito emocionado com o gesto e o cuidado dele.

Para quem não convive diretamente com o problema, pode não fazer muito sentido, mas para mim foi uma expressão de muito carinho e amor, um detalhe que pode fazer muita diferença e tornar nossa sexualidade mais natural e gostosa, sem neuras nem incômodos.

A questão do sexo oral e hiv é um tanto esquisita porque mesmo sabendo que há riscos (obviamente não mensuráveis), quase ninguém toma cuidado com a prática de sexo oral 100% protegido (do início ao fim) -- a não ser que tenha certeza que o parceiro seja realmente soropositivo. Num relacionamento sorodiscordante, tomar esse cuidado é muito importante, mas para mim foi uma surpresa ele ter vindo com essa solução criativa e gostosa de uma forma tão carinhosa: o presente era para mim, não foi um recurso que ele sacou da manga na hora H, entendem? E eu me senti realmente presenteado por saber que estou com uma pessoa disposta a estar comigo sem abrir mão do prazer nem da segurança. 

Quanto ao médico moralista, sei que há muitos por aí que não apenas não entendem a questão do hiv no contexto homoafetivo assim como há até cirurgiões que se negam a operar um soropositivo que precise de uma cirurgia. A ignorância (e consequentemente, o medo) não é exclusividade dos que não têm acesso à informação. O que torna nossa luta contra o preconceito ainda maior, pois sempre se acreditou que campanhas informativas seriam suficientes para erradicar os estigmas da doença -- um fator-chave no combate à sua disseminação.

Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

voando

Depois de um período de férias, precisei de alguns dias para aterrissar de verdade. Mas quando estava já me readaptando à vida real, me apaixonei e decolei de novo. E continuo nas alturas!!

Há cerca de 3 semanas, fui visitar minha família e um amigo me chamou para ir a um show e para levar mais alguém porque tinha convite sobrando. Tentei uns dois ou três amigos que não estavam disponíveis pois estava muito em cima da hora e todo mundo já tinha algum compromisso. Liguei para C., um amigo querido que conheço já há 13 ou 14 anos, e ele aceitou prontamente. Nós nos víamos esporadicamente, umas 2 ou 3 vezes ao ano e já havia rolado um trelelezinho entre nós em janeiro, mas nada além de um sexo gostoso entre amigos. Hehehehe....

Quando fui pegá-lo de táxi para irmos ao show, o vi de longe e pensei "uau, ele está muuuito interessante!" Colocamos o papo mais ou menos em dia até chegar ao local do show e lá encontramos com meu amigo e o namorado dele, já com os convites na mão. Entramos e sentamos. C. e eu pedimos umas cervejas e fomos conversando mais, colocando mais o papo em dia e eu não conseguia deixar de desejar beijar aquela boca. O show começou, tudo correndo bem e ele começou a comentar sobre algo que não estava gostando muito no espetáculo. Eu inclinei para frente para ele poder falar ao meu ouvido e quando ele começou a falar eu virei o rosto e o beijei. Ele tentou continuar a falar mas sem sucesso porque eu o beijei muito mais intensamente do que ele estava esperando. E ficou tudo por isso mesmo. Quer dizer, pelos próximos 20 minutos, porque logo ele me atacou e me beijou. O clima estava ficando quente e dali fomos tomar mais cerveja e, depois, a um motel. Um clima de total tesão romântico (ou romance tesudo?) e viramos a noite juntos. Foi incrível. Ele me deixou em casa já dia claro. 

Voltei para casa no outro dia e mantivemos algum contato durante a semana, quando ele falou em vir me visitar no fim de semana. Adorei a idéia, seria muito bom revê-lo. E ele voltou no fim de semana seguinte -- este agora que passou. Só que desta vez a coisa ficou bem mais séria e oficializamos o namoro em total clima de paixão e juras de amor eterno. Mas aí começou meu drama: o melhor momento e a melhor maneira de lhe falar sobre meu status sorológico. Titubeei diversas vezes enquanto ele esteve aqui, depois ao telefone, por email. Ontem de manhã decidi que não poderia esperar mais. Escrevi um email -- e não mandei. Mandei um sms para confirmar se ele estaria em casa e liguei para ele. Depois de algum rodeio, falei. 

Ele levou um susto, isso ficou bem claro -- também, quem não levaria? -- mas em seguida ele retomou o fôlego e falou "cara, isso para mim não muda nada, é uma situação que exige controle e cuidado, mas não muda o que sinto por você nem meu desejo de estar contigo". No fundo, eu já esperava uma reação semelhante, mas não deixou de ser impactante ouvir essas palavras -- afinal, foi a primeira vez que passei por isso na vida. Fiquei muito feliz mas lhe disse "tome seu tempo para digerir essa informação e vamos nos falando. Se você quiser conversar a respeito, me perguntar qualquer coisa, falar qualquer coisa, estou aqui". E fui fumar um cigarro (sem censura anti-tabagista, pliz!). Duas horas depois, um sms: "meu amado, vc está no meu coração. Te amo, cara." Putaquiupariu, eu não sei quando nem onde foi exatamente que eu acertei as contas com o Universo, mas pelo visto fiquei com um puta crédito com o Responsável por isso tudo.

À noite conversamos mais, ele falou que muita coisa começou a fazer sentido, minha postura durante o sexo, como eu impedia que certas coisas acontecessem e ele percebeu o quanto que eu já o vinha protegendo (ainda volto a escrever mais sobre hiv e ética). E falou que o fato de eu ter falado para ele por si só era uma grande prova de amor, como esse problema poderia ser tão pequeno em relação a algo muito maior que estamos vivendo.... nossa, foi lindo, eu fiquei passadíssimo com a postura dele, a abertura para falar sobre o assunto, sua receptividade e, acima de tudo, o amor que ele demonstrou não apenas por mim, mas pelo ser humano, pela humanidade, pelo outro, por todos. Um verdadeiro senso de alteridade amoroso e muito solidário. Ok, vocês podem dar um desconto porque estou apaixonado, mas mesmo com esse desconto é uma pessoa que tem muito a dar para o mundo, que bom que estou ao lado dele para poder receber parte de todo este amor que ele traz dentro de si.

Por isso ainda não aterrissei totalmente e espero continuar nos ares por muito tempo, muito apaixonado e muito feliz por ter encontrado uma pessoa tão incrível. Mas prometo que vou retomar a atualização do blog. 

Domingo, 5 de Abril de 2009

Burrocracias

Resolvi sacar meu fgts. Peguei uma declaração com minha médica e fui a uma agência da caixa longe do burburinho do business paulistano na esperança de ter um atendimento mais tranquilo e rápido. Chegando lá, a agência realmente estava bem tranquila. Pedi informação a um camarada atrás de uma mesa que perguntou se era por rescisão contratual e falei que era por doença. "Fale com o Fulano". Ok, esperei sentado numa "fila" desorganizada mas respeitada por todos que chegavam para ser atendido pelo fulano, quando um moleque de camiseta estampada e com cara e jeito de mensageiro estagiário me chamou à mesa do tal Fulano. Falei qual era o assunto e que tinha sido orientado a falar com o Fulano. O moleque falou que poderia ser com ele mesmo. Sentei esperando que pudesse mesmo.

Neste interim, o Fulano apareceu e meu atendimento foi feito pelo moleque que ia tirando dúvida com ele. Faltava um software xyz, que o moleque botou para baixar. Na mesa ao lado, um Beltrano atendia um senhor e todos olhavam para as telas dos computadores e falavam sobre os procedimentos e meu atendimento quase virou um simpósio. Até que o moleque pegou a declaração da minha médica e pertguntou ao Fulano (que deveria estar me atendendo em vez de orientar um estagiário com meu caso) "esse código daqui é o que mesmo?", referindo-se ao CID. O Fulano disse "sei lá, veja aí no guia, eu não sou dicionário, não lembro nem o que eu comi ontem!!" e todos riram e continuaram conversando alegremente.

"Putaquiupariu", pensei. "Só faltava meu atendimento ser feito de forma tão devassada". O tal programa não baixava e o moleque comentou "está tãaaaao lento...." e eu falei "pois é, e eu não posso realmente esperar taaaaaanto". Peguei meus documentos e corri para uma reunião para a qual já estava atrasado. 

Saindo da reunião, fui a outra agência da caixa, desta vez numa avenida mega movimentada, mas ainda assim a agência estava às moscas. Sempre imagino agências da cef cheias e tumultuadas com atendentes burocráticos e desinteressados. Esperei um pouco e fui atendido por um camarada mais maduro, muito simpático e atencioso que me explicou tudo, tirou todas as minhas dúvidas e demonstrou grande sensibilidade e competência, conversando sobre amenidades enquanto o processamento era feito. Um ser humano profissional e interessado, ao contrário de minhas teorias sobre repartições públicas apesar de ter tido a sorte de encontrar muita gente boa e competente exerecendo funções públicas. Senti-me à vontade para perguntar o que precisava ciente de que minha conversa com ele estava restrita àquele espaço e que ele sabia do que estava falando. Saí de lá tranquilo e aliviado por ter resolvido o assunto de forma direta e reta, sem que meu atendimento se tornasse um case para o treinamento de um molecote imaturo e sem noção e objeto de debate na agência.

A esta altura me questiono o quanto não sou paranóico demais, se não deveria relaxar um pouco e agir com mais naturalidade. Parece que eu mesmo me estigmatizo demais, que deveria ser menos duro coisa e tal. Do tipo, eu agi com muita naturalidade com o camarada que efetivamente me atendeu na outra agência, não me incomodei com nada e pude ficar relaxado durante todo o atendimento. Mas diante do ocorrido na primeira tentativa, fiquei pensando que mesmo amando o Brasil e a cidade onde moro, às vezes sinto falta da frieza ango-saxônica, daquele pragmatismo e do nível de seriedade e profissionalismo que experimentei em Londres, Nova York e Sydney, locais onde passei mais tempo do que umas breves férias.

Parece que o princípio norteador das atitudes e do comportamento da maioria dos brasileiros é um oba-oba cego e surdo e que antes fosse também mudo, mas não é. Pelo contrário, é histérico e esporrento, como os carros de som que vendem pamonhas ou compram "máquinas de lavar velhas" (sempre imaginei minha avó dando piruetas dentro d'água numa brastemp). Há uma promiscuidade energética e relacional quando o contexto exige uma postura muito mais direcionada e restrita. Pelo menos a meu ver, um banco do governo que atende pessoas com direito a benefícios por questões personalíssimas tais como falecimento, doenças e desemprego deveria ter uma conduta no atendimento muito mais séria do que pude testemunhar. Como assim "esse código daqui é qual mesmo?" na frente de outros atendentes e clientes do banco? Uma declaração médica não é foto de gol de campeonato no jogo da noite anterior e merece um cuidado um pouco maior. Fosse câncer, aids ou a doença que fosse, e ele sabe que se estou ali não é por micose na unha do dedão do pé nem por hérnia de hiato, ele não poderia expor o cliente/usuário (eu!) do sistema de benefícios do governo federal de forma tão leviana. Estou errado?

Se é possível prestar um atendimento humano e sério como o que recebi em seguida, fico satisfeito por saber que a zorra não é tão geral assim. E fico feliz por morar num país e numa cidade onde temos direitos e podemos usufruí-los dignamente, apesar de quase sempre reclamarmos do contrário. Espero que esta seja mais a regra do que a exceção.

Sexta-feira, 3 de Abril de 2009

Bomba-relógio

Ontem fui à minha médica para aquela consulta que deveria ter ocorrido há mais de 6 meses... he...

Ela olhou os exames todos, levei mais alguns antigos que não estavam na minha pastinha de exames na outra consulta e, no fim, comentou: "está tudo bem, você não tem com que se preocupar ainda..." e eu fiquei aliviado, apesar de já saber que AINDA não seria hora de me preocupar com muita coisa -- é sempre bom confirmar coisas boas.

O que causa uma certa angústia é exatamente esse "AINDA". Obviamente, as coisas estão muito melhores do que há 15 anos, quando o "ainda" prenunciava coisas bem mais sérias do que acrescentar remédios à rotina de exames de um soropositivo. Mas ninguém (e eu não seria a exceção) quer ouvir o tic-tac de uma bomba relógio, independente do tempo que ela levará para explodir.

Sexta-feira, 27 de Março de 2009

para rir e refletir

Como estou num daqueles dias em que nem penso no fato de ser hiv+ (tou com um enorme foda-se de neon aceso na minha testa para isso), lembrei da frase mais espirituosa que já li sobre aids:

“When God gives you aids,

(and God does give you aids, by the way)

make lemonaids.”**

— Sarah Silverman



(pode colocar um chorinho de gin?)



** Em bom português: "Se Deus te der aids, faça uma limonaids!"

Segunda-feira, 23 de Março de 2009

cul-de-sac


Depois de algum tempo sem maiores novidades sobre o desenrolar de meu encontro com L. (veja o primeiro e o segundo posts a respeito), a mini-série finalmente chegou ao fim. 

Continuamos em marcha lenta por todo esse tempo, veio carnaval, ele viajou a trabalho por 10 dias, enfim, um devagar e sempre bem xoxo. Mas eu também tinha minhas razões para querer seguir assim.

Primeiramente, ainda estou me recuperando de uma separação muito traumatizante, um relacionamento que era baseado na química sexual e só, mas que deixou sequelas um tanto profundas. Desta vez eu havia conhecido um cara com quem havia muitas afinidades e poderíamos acrescentar muito um ao outro, mas a química não era tão forte -- tá, falando bem francamente, não parecia haver química alguma mas nem tivemos tanta oportunidade de experimentá-la.

Segundamente, esse lance da química eu atribuo, pelo menos em parte, à minha dificuldade de lidar com o fato de ser hiv+ e estabelecer um espaço de intimidade tão rapidamente. Aquele dilema: conto logo de cara ou espero para ver se vale a pena contar? Se não fosse contar logo de cara, não poderia criar muita intimidade sem estabelecer limites muito claros para não expô-lo. Como estávamos em marcha lenta, não sabia se esperava algum momento certo, se é que haveria tal momento (na verdade houve, mas ele me interrompeu e pediu para não falar mais nada, o que foi um alívio para mim!).

Por outro lado, havia a questão da disponibilidade dele que, por ter um estilo de vida muito corrido, dividido entre duas cidades e com muitos problemas de trabalho, era um pouco difícil ter tempo para uma convivência mais próxima. Mas neste ponto eu volto à questão da química: se houvéssemos experimentado a intimidade mais profundamente e estabelecido uma ligação maior, talvez as faíscas poderiam ter acendido uma paixão mais intensa e esta disponibilidade teria sido criada.

Na verdade, entre saber se faltou entrega da minha parte ou se realmente não houve uma ligação maior por que realmente não havia a tal química, fico apenas com o que me cabe e aprendo a lição. Neste meio tempo, não deixei minha energia dispersar com outros caras, deixei de sair com outras pessoas para não comprometer ainda mais o processo que estava em andamento com L. Eu estava disposto a tentar fazer dar certo.

Então o que aconteceu foi o seguinte: na semana passada eu mandei uma mensagenzinha boba para ter notícias dele (nunca cobrei nem exigi nada dele mas também não sei como ele pode ter interpretado essa minha tranquilidade) e ele me ligou em seguida, falando que havia chegado na cidade na véspera, que havia vindo meio que de surpresa, decidiu num rompante para ir ao aniversário de uma grande amiga e tinha ido dormir bem tarde, mas que estava pensando em mim quando eu mandei o sms, incluindo um elogio parecido com «como sempre, você manda mensagens muito inteligentes». Eu quase ri, porque só faltava ele emendar e falar aqueles clichês todos de quem está dando um toco: «você é uma pessoa maravilhosa, você é incrível, por favor me entenda, o problema não é você, sou eu! Estou num momento em que preciso ficar comigo mesmo, estou com saudades de mim!» e blá blá blá... mas apenas marcamos um encontro para aquela noite mesmo. 

Fomos ao teatro e depois jantamos com amigos dele. Tudo normal como sempre, nada de diferente nem fora do padrão, apenas uma discussão calorosa porém saudável sobre política antes de entrarmos na peça. Lá pelas tantas ele fez um comentário sobre sua rotina agitada que deu a entender que sua vinda havia sido planejada um pouco antes do que ele havia sugerido pelo telefone naquela manhã. Engoli em seco e deixei rolar.

Quando fui deixá-lo em casa, parei o carro e apenas disse «fala» e ele começou com algum rodeio, mas nem bateu a marca dos 10 segundos e desembuchou: «eu achei que estava num momento para ter uma relação mas pelo visto me enganei...». No afã de evitar a clichezada que se anunciava com um rufar de tambores ensurdecedor, fui um pouco mais incisivo «você não está disponível, L.» e ele «é isso, não estou disponível...» e eu falei «ok». Aí, ele meio que desbundou um pouco e falou «ok?» e eu falei «ok». Já havia digerido aquela coisa toda e não estava a fim de entrar em discusssões filosóficas nem falar nada que pudesse soar como uma defesa ou, pior, um contra-ataque.

Despedimo-nos com um selinho bem rápido, lhe desejei boa sorte com tudo e ele saiu de maneira meio desajeitada do carro, como se procurasse algo que não poderia esquecer ali, mas não havia nada e perguntei «você quer levar mais o quê?». Não foi minha intenção, mas ficou no ar um sentido dúbio para aquela pergunta. He...  Antes de fechar a porta, ele ainda fez aquele movimento de colocar a cara para falar mais alguma coisa, mas recuou e se foi. Esperei 4 segundos para engatar a primeira e fui embora. Acho que batemos o recorde do toco mais rápido do mundo, sem drama nem enrolação.

Meu primeiro impulso foi tentar perceber se havia alguma dor naquele «rompimento». Mas aparentemente eu não estava sentindo nada em relação a ele, apenas lamentava o fato de não ter dado certo sem nem saber se o fracasso se deveu ao meu medo e minha postura defensiva. Por outro lado, um certo alívio por não ter revelado antes meu status sorológico porque se ele realmente não estava disponível, nada no mundo me tiraria da cabeça que ele teria pulado fora por causa disso. Um cigarro, eu só precisava de um cigarro. Porra, nem estava fumando, mas uma fumacinha ajudaria a sufocar um bocado fosse lá o que estivesse se passando comigo naquele momento -- dor? medo? alívio?

Obviamente, não sou tão ingênuo a ponto de comprar aquele papo todo, mas achei muito digno e delicado o modo como ele tratou a questão. É claro que ele realmente está num momento crítico da situação profissional e tudo mais, mas se a tal química estivesse ali bombando, tudo se organizaria para o tal momento de viver uma relação se materializar. Daí volto à questão de o quanto que minha posição mais retraída não impediu que a paixão surgisse, o quanto que meu medo não foi um peso morto para impedir que a relação deslanchasse? Ou não?

Como os relacionamentos em regra começam por um processo de apaixonamento intenso que cega e ilude as pessoas, trazendo aquela necessidade de estarem juntas e o desejo ou disponibilidade de abrir mão de (quase) tudo para fazê-lo, talvez uma abordagem diferente possa ter causado estranheza e levado à interpretação de que não haveria muito futuro num encontro em que as coisas aconteçam mais tranquilamente. E pode um encontro assim, mais tranquilo, levar a algum lugar? E permitir a criação de um relacionamento baseado na amizade e na confiança, no interesse mútuo e no desejo de construir algo juntos, sem passar necessariamente pelo apaixonamento intenso? Ou será que escolhi essa abordagem apenas para me preservar da questão de revelar meu status sorológico logo de cara? Enfim, muito para se refletir e me preparar para o próximo encontro.

Não sei nem nunca vou saber as respostas, nem mesmo se minha indiferença é uma defesa ou se realmente não havia muito leite para se espremer daquela pedra.

Sexta-feira, 20 de Março de 2009

Direitos do portador de hiv/aids


Fiquei na dúvida de como abordar os direitos das pessoas com hiv/aids de forma concisa, mas sem deixar de fora nenhum aspecto importante. Não consegui, então vai na forma cheia mesmo mas abusei dos branquitos para facilitar a leitura. (no site da Roche há um bom resumo de tudo que diga respeito aos direitos do portador de hiv/aids)

A UNAIDS é o programa das Nações Unidas para hiv/aids e estabelece políticas e diretrizes para que os portadores de hiv e aids sejam protegidos, respeitados e tratados no âmbito de seus direitos individuais e coletivos. De maneira geral, o site da UNAIDS é muito completo e abrangente no tocante a esse assunto, incluindo muitos dados atualizados sobre a situação do hiv e da aids no mundo inteiro, das políticas para o combate, a prevenção e o tratamento. A seção de direitos humanos e hiv é beeem concisa (acho que vou fazer um estágio com eles!! hahahahaha!! tenho que aprender a enxugar meus textos urgentemente!!!) e aproveito alguns itens destacados por eles que resumem bem a essência dos direitos do portador de hiv/aids:

Non-discrimination and equality before the law : right not to be mistreated on the basis of health status, i.e. HIV status
Right to health : right not to be denied health care/treatment on the basis of HIV status
Right to liberty and security of person : right not to be arrested and imprisoned on the basis of HIV status
Right to marry and found a family , regardless of HIV status
Right to education : right not to be thrown out of school on the basis of HIV status
Right to work : right not to be fired on the basis of HIV status
Right to social security, assistance and welfare : right not to be denied these benefits on the basis of HIV status
Right to freedom of movement , regardless of HIV status
Right to seek and enjoy asylum , regardless of HIV status

Lembrando que alguns países ainda restringem a entrada de turistas hiv+ e muitos não concedem vistos de estudo e trabalho para portadores do hiv. Isso, para não falar nos países onde estrangeiros hiv+ são presos e deportados!!

Em 1989, foi declarada em Porto Alegre a Declaração dos Direitos Fundamentais da Pessoa Portadora do Vírus da aids. Trata-se de uma declaração de direitos inspirada na Declaração Universal dos Direitos Humanos, da qual vieram todas as outras declarações de direitos: das quebradeiras do côco do babaçu, dos peixes ornamentais, dos domadores de feras de circo etc.

Destaquei alguns aspectos que considero importantes e que devem ser levados em consideração por hiv+ e seus amigos, familiares e médicos, tais como o direito ao sigilo, à privacidade, ao convívio social e a uma vida normal, sem ser discriminado nem excluído por sua condição.

I - Todas as pessoas têm direito à informação clara, exata, sobre a aids. Os portadores do vírus têm direitos a informações específicas sobre sua condição.

II - Todo portador do vírus da aids tem direito à assistência e ao tratamento, dados sem qualquer restrição, garantindo sua melhor qualidade de vida.

III - Nenhum portador do vírus será submetido a isolamento, quarentena ou qualquer tipo de discriminação.

IV - Ninguém tem o direito de restringir a liberdade ou os direitos das pessoas pelo único motivo de serem portadoras do HIV/aids, qualquer que seja sua raça, nacionalidade, religião, sexo ou orientação sexual.

V - Todo portador do vírus da aids tem direito à participação em todos os aspectos da vida social. Toda ação que tende a recusar aos portadores do HIV/Aids um emprego, um alojamento, uma assistência ou a privá-los disso, ou que tenda a restringi-los à participação nas atividades coletivas, escolares e militares, deve ser considerada discriminatória e ser punida por lei.

VI - Todas as pessoas têm direito de receber sangue e hemoderivados, órgãos ou tecidos que tenham sido rigorosamente testados para o HIV.

VII - Ninguém poderá fazer referência à doença de alguém, passada ou futura, ou ao resultado de seus testes para o HIV/aids sem o consentimento da pessoa envolvida. A privacidade do portador do vírus deverá ser assegurada por todos os serviços médicos e assistenciais.

VIII - Ninguém será submetido aos testes de HIV/aids compulsoriamente, em caso algum. Os testes de aids deverão ser usados exclusivamente para fins diagnósticos, para controle de transfusões e transplantes, e estudos epidemiológicos e nunca qualquer tipo de controle de pessoas ou populações. Em todos os casos de testes, os interessados deverão ser informados. Os resultados deverão ser informados por um profissional competente.

IX - Todo portador do vírus tem direito a comunicar apenas às pessoas que deseja seu estado de saúde e o resultado dos seus testes.

X - Toda pessoa com HIV/aids tem direito à continuação de sua vida civil, profissional, sexual e afetiva. Nenhuma ação poderá restringir seus direitos completos à cidadania.

O link para essa declaração está aqui (site do Ministério da Saúde).

Mas como esses direitos repercutem na vida real?

Cabe ressaltar que há diferença entre ser portador do hiv e paciente de aids, sendo óbvio que o segundo tem todos os direitos que o primeiro (ex. levantamento do FGTS) e alguns outros (ex. auxílio-doença e levantamento do PIS/PASEP), de acordo com seu estado de saúde.

Direitos reservados aos portadores de HIV/AIDS