sábado, 7 de março de 2009

HIV Stops With Us

Está muito bonita a campanha HIV Stops With Us -- que antes era HIV Stops With Me . Os depoimentos são muito tocantes e é interessante conhecer soropositivos que estão na luta para conter a doença e reduzir o ritmo das novas infecções.

A campanha é voltada à conscientização de hiv+ no controle de novos contágios, mostrando a importância de proteger seus parceiros sexuais para que permaneçam negativos. Além de elevar o senso de responsabilidade tanto dos hiv+ como dos hiv-, a campanha visa romper com estigmas e preconceitos relacionados ao status sorológico.

Não deixe de conferir:



Segredos


Meu status sorológico é um assunto muito fechado. Não tenho muito com quem conversar a respeito e as poucas pessoas para as quais revelei meu status não se sentem muito confortáveis sobre o assunto, têm medo de falar o que não devem, usam eufemismos engraçados etc. E eu super entendo, porque também já fui hiv- um dia e eu também tive que lidar com pessoas que eram hiv+ e sei que, por inabilidade ou por ignorância, deixei de falar a coisa certa ou acabei falando o que não devia ao tentar agir de forma natural demais sobre o assunto.

Recentemente fiquei sabendo de um amigo que começou a tomar o coquetel e liguei para ele imediatamente. Conversamos sobre o assunto e foi tranquilo, mas é estranho vislumbrar o futuro próximo, como se ouvisse uma daquelas músicas de filme de suspense que anuncia a chegada da ameaça que você pode até saber qual é, mas não sabe em que momento o ataque acontecerá, de que canto escuro surgirá o monstro. E não adianta correr porque, assim como nos filmes, neste contexto a fuga não levará a um lugar totalmente seguro e a qualquer instante o monstro estará à sua frente sem que ele tenha corrido um décimo do que você correu nem empreendido nenhum esforço descomunal para te alcançar.

Não sou pessimista com relação à doença -- pelo contrário, tive perto de mim uma pessoa que sobreviveu muitos anos sem tomar qualquer remédio e acabou falecendo num acidente de carro com a saúde totalmente controlada, mas preciso ser realista e pragmático ao reconhecer as possibilidades que me aguardam. Por mais que tente regular a alimentação, manter hábitos saudáveis, tomar vitaminas etc., uma carga viral mais alta e uma gripe reincidente se transformam numa insônia com uma facilidade incrível.


Sei que poderia tirar um grande proveito de uma terapia e farei isso em breve, prometi a mim mesmo, mas apesar de não viver pensando em mim mesmo como um hiv+ o tempo inteiro, há uma tensão latente que subjaz a tudo que penso, sinto e faço. Às vezes sinto como se houvesse dois de mim em mim: um que se preocupa e sofre muito por ser hiv+ e outro que não está nem aí, simplesmente administra a situação e não a encara como um problema. Pelo fato de não ter com quem conversar a respeito, nem sei se desejo falar sobre o assunto com tanta frequência, sempre me questiono qual seria o problema de revelar meu status sorológico. Nem amigos próximos sabem, salvo raras exceções pois conto nos dedos as pessoas com quem comentei sobre o assunto e já me parece suficiente.


Outro dia aconteceu um fato que me fez pensar: eu estava numa reunião de amigos, éramos no máximo uns 8, e chegou um amigo do dono da casa. Era um rapaz bem aparentado, meio embotadinho mas simpático. E quando fomos embora, uma amiga que me daria carona me falou que o tal rapaz é um primo do dono da casa que teve problemas com drogas, como isso dava pena nela blá blá blá.... sei lá, eu não queria sair de uma festa ou da casa de amigos e que comentassem algo como "tadinho, ele é soropositivo...." ou algo do gênero. Por isso evito comentar sobre meu status mesmo com amigos. Um dia posso mudar essa idéia ou percepção, mas no momento ainda prefiro assim. (No Rio de Janeiro, uma senhora nos seus 40 anos teve que sair do condomínio onde morava por sofrer ameaças e outras manifestações hostis de preconceito por parte de seus vizinhos, então não estou falando de uma paranóia extrema.)

Um amigo leitor do blog me contou sua história e eu pedi para citá-la aqui: ele descobriu há poucos meses ser hiv+ e, fazendo uns cálculos, acredita que quem o contaminou foi um ex-namorado dele que hoje é seu chefe na empresa onde trabalham. O drama: ele deve conversar com seu ex-namorado sobre o assunto? O cara é chefe dele hoje e eles ainda são amigos, mas ele não tem certeza se foi o cara mesmo! Como abordar esse assunto? Quais consequências isso pode ter para a amizade e o emprego dele? Enfim, como lidar com um assunto tão delicado num contexto tão crítico exige parâmetros e referências ainda inexistentes no que respeita a ética das relações.

Pensei muito sobre o assunto e cheguei à seguinte conclusão: as pessoas em geral devem assumir total responsabilidade sobre sua saúde, fazer exames periódicos e se cuidar sempre. No caso de jovens gays com vida sexual ativa, esse cuidado todo deve ser MUITO maior e fazer o teste, imperativo. Então, eu jamais assumiria esse ônus, ainda mais desconfiando que foi o outro que me contaminou e podendo colocar em risco meu emprego..

Não sei se é uma regra geral ou quem inventou isso, mas alguns médicos com quem me consultei me perguntaram se eu havia conversado sobre o assunto com a pessoa que teria me infectado e outros parceiros que tive depois da infecção. É óbvio que não!! Eu cheguei a falar com o cara que me infectou que logo após a gente ter transado eu tive micoplasma (o que foi verdade) e ele falou que havia feito exames para um pré-operatório e estava tudo em ordem, mas não entrei em detalhes nem no mérito de nada, só deixei a dica (espero que ele tenha procurado um médico) e nunca mais nos falamos. Quanto aos outros, eu não falei nada com ninguém, apenas com meu namorado na época do diagnóstico pois ele foi o único a quem expus o vírus, com os outros, tudo foi feito como manda o figurino, então não achei que fosse necessário sair propagando por aí meu status. Eu sempre fiz exame e penso que todos devem se testar de tempos em tempos independente de praticarem sexo seguríssimo.(Em breve, mais sobre hiv e responsabilidade ética e legal.)

À vida

Libação

É do nascedouro da vida a grandeza.
É da sua natureza a fartura
a ploriferação
os cromossomiais encontros,
os brotos os processos caules,
os processos sementes
os processos troncos,
os processos flores,
são suas mais finas dores

As conseqüências cachos,
as conseqüências leite,
as conseqüências folhas
as conseqüências frutos,
são suas cores mais belas

É da substância do átomo
ser partível produtivo ativo e gerador
Tudo é no seu âmago e início,
patrício da riqueza, solstício da realeza

É da vocação da vida a beleza e a nós
cabe não diminuí-la, não roê-la
com nossos minúsculos gestos ratos
nossos fatos apinhados de pequenezas,
cabe a nós enchê-la,
cheio que é o seu princípio

Todo vazio é grávido desse benevolente risco
todo presente é guarnecido
do estado potencial de futuro

Peço ao ano-novo
aos deuses do calendário
aos orixás das transformações:
nos livrem do infértil da ninharia
nos protejam da vaidade burra
da vaidade "minha" desumana sozinha
Nos livrem da ânsia voraz
daquilo que ao nos aumentar
nos amesquinha.

A vida não tem ensaio
mas tem novas chances

Viva a burilação eterna, a possibilidade:
o esmeril dos dissabores!
Abaixo o estéril arrependimento
a duração inútil dos rancores

Um brinde ao que está sempre nas nossas mãos:
a vida inédita pela frente
e a virgindade dos dias que virão!

À morte

Quando tive a oportunidade de ver uma exposição bem abrangente da obra de Andy Warhol, entendi como ele era visionário e sacou como a mídia seria responsável pela espetacularização das coisas mais prosaicas da vida, de hábitos de consumo à morte e o sexo.
Sua série Death and Disaster causou polêmica por usar imagens de acidentes automobilísticos, suicídios etc. Mais de 40 anos depois, uma imagem chocante como a usada em Suicide não se compara ao que testemunhamos hoje diariamente em noticiários policiais e nas manchetes dos jornais.



E foi o próprio Andy Warhol o grande precursor dos reality shows que hoje expõem toda a crueza da intimidade e das neuroses humanas e cativa a atenção e o olhar curioso de pessoas de todas as idades. Mas o que está em jogo não é o que somos nem por que fazemos o que fazemos, mas sim a busca pela fama e o sucesso. Todos querem gozar dos tais 15 minutos de fama profetizados pelo pop artista.


Jade Goody tornou-se celebridade aos 21 anos no Big Brother inglês. E ela se acostumou tanto com a vida sob o spotlight que sua morte está sendo acompanhada em tempo real por milhões de pessoas. Jade foi diagnosticada com câncer avançado em agosto de 2008 e, desde então, a mídia vem acompanhando seu tratamento, seus planos para seu próprio funeral, seu casamento às pressas... enfim, Jade ascendeu sob os holofotes e seu ocaso será igualmente espetacularizado, o grande público testemunhou o nascimento e está testemunhando a morte de uma celebridade.

Eu nunca havia ouvido falar dela antes de ser noticiada sua doença e seu casamento, mas agora há notícias sobre sua morte lenta e agonizante diante das câmeras com detalhes tocantes como o batismo seu e de seus filhos e outros elementos que, se estivessem numa novela ou numa série de TV, pensaríamos que o roteirista teria pesado a mão e apelado pro dramalhão exagerado para arrancar a todo custo lágrimas dos espectadores.
Verdade ou mentira, seu drama me faz pensar sobre esse processo inevitável que ela enfrenta tão cedo -- Jade tem 27 anos. Não critico sua escolha de vivê-lo publicamente, mas como ela consegue lidar com a iminência de seu fim? Como viver cada minuto com dor e sofrimento, sabendo que em breve tudo estará acabado -- será um alívio? Ela não mais verá seus filhos, não mais estará ao lado do homem que ama... Será que ela pensa se sentirá saudades deles? Há saudade após a morte? Há algo do lado de lá que nos mantenha ligado ao que vivemos aqui? Ou o apego é todo do lado de cá, lá só há liberdade -- ou nada?

Sempre me emociono quando vejo um vídeo de parto natural. O milagre da vida <\clichê> acontecendo ali, diante da câmera, me instiga e me faz imaginar que força superior pode ter projetado toda a complexidade e perfeição disso tudo. Mas há alguns anos vi um filme chamado Faces da Morte (não recomendo), que exibia cenas de pessoas e animais morrendo por razões diversas (doenças, acidentes, rituais etc.) e no fim do filme, um lindo rechonchudo e viçoso nada (ou corre ou engatinha) para resgatar nossa ligação com a vida e mostrar que tudo faz parte do mesmo ciclo. Mas a morte incomoda e dá medo, deixa saudades pros que ficam e revela o grande mistério a quem vai.

Toda esta temática tem estado muito presente. Por acaso ou não, tenho deparado frequentemente com os temas da eutanásia, aborto, suicídio etc. em séries de TV, sites e notícias. E me intriga muito a polêmica que esses assuntos causam e todo o questionamento religioso, ético e filosófico sobre aquilo que é comum a todos os seres vivos -- um dia, todos morreremos. Alguns ricos, outros pobres, alguns doentes, outros saudáveis... mas todos morreremos de uma maneira ou de outra. Só que algumas pessoas querem escolher como e quando, mas não podem... Final Exit é um site incrível sobre eutanásia. (Longe de fazer apologia à morte, ao suicídio ou à eutanásia, estou apenas divagando sobre o tema e não pretendo chegar a conclusão alguma.)


Como descendente de português, entendo bem a relação de apego que temos com a vida e o sofrimento. Há uma lenda medieval portuguesa que mostra como o país de nossos colonizadores se conformou com o destino final de todos e a miséria do mundo: uma senhora portuguesa com certeza, chamada Dona Miséria (quase todas as portuguesas carregam algum gene dessa senhora), recebe a visita da Morte mas consegue prendê-la em sua figueira encantada -- afinal, Dona Miséria era miserável mas não queria morrer. Com a Morte presa, o mundo começa a virar um caos -- as pessoas deixaram de morrer! -- e com muito custo, a Morte negocia sua liberação para poder ir trabalhar, garantindo que nunca levará Dona Miséria. Ou seja, a morte é um mal necessário para o mundo -- e a miséria nunca vai deixar de existir... Hahahahahaha!! Adoro a visão de mundo daquela gente pitoresca da Lusitânia!

Our mind thinks of death.

Our heart thinks of life

Our soul thinks of Immortality.

(Sri Chinmoy)

(Procure no Google Images as palavras «vida» e «morte». A primeira traz imagens coloridas luminosas, cafonas, brilhantes... e as pesquisas relacionadas são «felicidade» e «bebê». Já a segunda, traz imagens sombrias, frias, angustiantes.)

terça-feira, 3 de março de 2009

Ignorância e Preconceito

Parece novela de Jane Austen ou filme com Emma Thompson e Anthony Hopkins, mas na prática são duas coisas indissociáveis: quanto maior a ignorância, maior o preconceito -- e vice-versa.

Outro dia, uma amiga me falou que tinha conhecido um carinha que era uma graça mas que ela achava que ele fosse garoto de programa por se depilar, cuidar demais do corpo etc. (preconceito número 1). Eu falei que era bobagem, que hoje muitos caras fazem isso por vaidade e parece até que o cara era personal trainer, então isso justificava na boa. Mas ela tinha medo que ele fosse garoto de programa porque ela queria transar com ele e tinha medo que ele tivesse "aids" (preconceito número 2).
Bom, eu falei para ela que em primeiro lugar, muitos profissionais do sexo se cuidam mais do que muita gente que transa (muito) por aí sem cobrar; em segundo lugar, ela deveria tomar todos os cuidados possíveis e necessário com todos os caras que ela conhecesse, independente de idade, profissão ou status sorológico.



Uma pessoa que tem vida sexual ativa deve se informar sobre formas de contágio e usar esse conhecimento para se prevenir, se proteger e proteger a quem se ama. Ficar indiferente ou ignorante no que diz respeito ao hiv e outras doenças sexualmente transmissíveis é falta de amor próprio. Como diz Susan Sontag,

Aids obliges people to think of sex as having, possibly,

the direst consequences: suicide. Or murder.

Pode soar dramático demais, mas é mais ou menos por aí. (Mais de Susan Sontag em breve.)

Algum tempo depois ela veio me contar que tinha transado com o cara e que achou ele muito cheio de frescura (!). Pedi um exemplo e ela falou "ele não quis me beijar depois de gozar na minha boca" (!!!). Bom, nem vou entrar nessa velha questão se o homem deve ou não beijar a boca onde ele acabou de gozar, isso é problema do gozador e do gozado. Mas para uma pessoa que parecia preocupada com a profissão e o status sorológico de um desconhecido, chegar ao ponto de deixar o cara gozar em sua boca pouco tempo depois de tê-lo conhecido mostra como as pessoas continuam MUITO ignorantes (e, por conseguinte, preconceituosas) e, por isso mesmo, não estão se cuidando como deveriam.

O preconceito, doença que turva nosso olhar e entorta nossa alma, que nos

diminui e nos emburrece, é uma das enfermidades mais sérias deste nosso mundo. (...)

Se permitirmos que essa doença maligna – o preconceito, pai do ódio e

filho da ignorância – nos domine, seremos em breve o mais atrasado no círculo dos

povos atrasados, uma manada confusa obedecendo a qualquer chibata ideológica.

Lya Luft

domingo, 1 de março de 2009

Serenidade, coragem e sabedoria

"Concedei-me, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar aquelas que posso e sabedoria para distinguir umas das outras".

Considero-me uma pessoa bem informada. Leio muito: blogs, livros, diversos sites de notícias nacionais e estrangeiros, uma revista semanal... e interajo com pessoas bem informadas, vejo documentários e noticiários, enfim, fico antenado em diversos assuntos e procuro me manter a par do que anda acontecendo pelo mundo afora.
Desde que me tornei poz, me dediquei a ler mais sobre o assunto e de tempos em tempos jogo no google "hiv cure" para saber o que há de novidades em pesquisas etc. Mas uma coisa que eu não consigo ler nem por um decreto é o que há de informação sobre a evolução do quadro clínico de hiv+, estatísticas de doenças relacionadas etc. Simplesmente me aterroriza saber a incidência de determinados tipos de cânceres que, por fatalidade ou uma piada cósmica de muito mau gosto, contribuem para tornar mais miserável a luta contra o hiv e pela vida.
Mas é inevitável cair nalgum blog ou site médico que informa sobre o assunto e eu fico entre fechar a janela e seguir contemplando o que desponta no horizonte dos hiv+. Lembro de todos os filmes que vi sobre o surgimento da aids e como a doença destruiu a vida de indivíduos, famiílias e comunidades e de histórias nada inspiradoras de pessoas que se negaram a se tratar como manda o figurino, como foi o caso da cantora israelense Ofra Haza que, apesar de negado pela família, manteve em segredo seu quadro e não buscou tratamento por vergonha ou sabe-se lá por quê. (Essa versão da história foi amplamente comentada na sociedade israelense, segundo um amigo meu de lá.)
Tentei ver "Angels in America", uma premiadíssima série de 6 capítulos feita para a tv e que contou com a participação de grandes nomes como Al Pacino, Meryl Streep, Emma Thompson, Mary Louise Parker e outros. Trata-se de um drama fantástico que retrata a vida dos homossexuais e pessoas atingidas pela aids em meados da década de 80 com direito a presença de anjinhos e outras gracinhas, mas nem posso falar muito mais a respeito porque não consegui passar do primeiro capítulo. Ainda voltarei a tentar, mas realmente não tive estômago nem cabeça para acompanhar uma dramatização quase desesperadora do que foi a doença no início e o que ela ainda traz às vidas das pessoas que convivem com ela.
É claro que é importante entrar em contato com a história da doença e poder conhecer o impacto que causou na vida das pessoas pelo mundo afora. Por isso vi alguns filmes e documentários, leio tantos blogs e pesquiso na Wikipédia sobre a vida de pessoas que se tornaram célebres justamente por sua luta contra o hiv, a aids e o preconceito. Mas ver uma cena com Al Pacino se negando a aceitar o diagnóstico do médico porque ele não poderia ter aquela doença de homossexuais e drogados é muito pouco perto da cena em que o cara descobre ser soropositivo, diz que está evacuando sangue e espera o momento de morrer sem saber se seu namorado (ou amante ou companheiro) ficará ao seu lado naquela luta -- e o conflito do segundo entre ficar e pular fora... Enfim, muito intenso para qualquer pessoa sensível e muito mais para quem convive com a questão mais intimamente -- correndo pelas próprias veias, eu diria.
Por isso, sei da importância de lutar pela qualidade de vida e manter o foco em projetos construtivos, o que inclui minha saúde. Mas como sou curioso mesmo, sei que vou sempre esbarrar nas más notícias, como essa que acabo de ler no BBC Health: a evolução do hiv dificulta o desenvolvimento de uma vacina, o que pode levar décadas para se tornar realidade, pois o vírus sempre estará um passo à frente.

Por isso, digo e repito: "Concedei-me, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar aquelas que posso e sabedoria para distinguir umas das outras".

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Health Report

Publicado recentemente um estudo que aponta para boas perspectivas no tocante à terapia genética para tratar o hiv, esta notícia vem como uma lufada de ar fresco para quem, como eu, estava angustiado com a crise e a desaceleração nas pesquisas da indústria farmacêutica -- que já estão ganhando dinheiro suficiente com as drogas existentes. Obviamente, não é o caso de soltarmos fogos, mas é bom saber que ainda há muita gente trabalhando duro para encontrar uma cura.

Por outro lado, o governo chinês acabou de divulgar que a aids já lidera a causa mortis entre as doenças infecto-contagiosas, alertando para o grave problema tanto na prevenção como na assistência aos hiv+ na China. O preconceito, a falta de informação e a imigração ilegal são os maiores responsáveis por estes dados alarmantes. Em números relativos, não é algo assim tão assustador, pois trata-se do país mais populoso do mundo. Mas em números absolutos, é assustador imaginar que 7.000 pessoas morreram de aids no país somente nos primeiros 9 meses de 2008, contra 8.000 mortos nos 3 anos anteriores. Esse aparente aumento pode ser atribuído a estatísticas pouco confiáveis e até a um certo jogo duro do governo chinês em admitir estar enfrentando um grave problema de saúde pública envolvendo o hiv sem culpar os imigrantes de outros países da região que acabam encontrando na prostituição um meio de sobrevivência.

Enquanto isso, o Brasil deve iniciar a produção de mais dois medicamentos que estarão disponíveis aos hiv+ pelo SUS, ampliando as chances de tratamento para os que desenvolveram resistência ou não tiveram sucesso com os arv's já distribuídos pelo Ministério da Saúde.

Duas notícias animadoras e outra um tanto preocupante, mas as coisas parecem estar evoluindo positivamente. O importante é termos em mente nosso dever de informar e nos manter informados sobre hiv e aids.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Crossroads 2

Como nada havia acontecido desde o último post, somente agora posso contar alguma novidade.

Depois de duas semanas sem nos encontrarmos, acabamos indo ao cinema no domingo. Já dentro do cinema, começamos a ir um pouco além do que havíamos nos permitido. Sem entrar em maiores detalhes, assistimos ao filme inteiro com carícias, digamos, mais ousadas. E dali, fomos jantar mas já pensando no que faríamos depois.

E fomos para a casa dele. Como as duas semanas resultaram numa certa esfriada e as incertezas quanto ao futuro dessa relação ficaram ainda maiores, resolvi não revelar ainda meu status. E nos limitamos, mais uma vez, a curtir carícias e a intimidade sem irmos muito além disso. Ou seja, ainda estamos nos conhecendo e não chegamos às vias de fato. Hehehehe.... Tanto rodeio para dizer que a gente nao fodeu pra valer, i.e., ninguém comeu ninguém e não rolou sexo oral.  

Enfim, depois dessa noite, nos encontramos para um café antes de ele embarcar para ficar 2 semanas fora. E tivemos um papo muito bom sobre como cada um encara os relacionamentos, o que aprendemos com experiências anteriores etc. Foi muito interessante, quase uma declaração de intenções e foi nesse momento em que percebi que o caminho está aberto, ou seja, ele já se relacionou com um hiv+ e disse que não deixaria de se envolver com alguém por causa disso. Mas depois de quase duas horas de muita informação e como ele estava embarcando para passar duas semanas fora, fiquei aliviado mas não achei que seria o melhor momento de declarar meu status. Apesar disso, estou muito mais tranquilo e me sinto menos pressionado a tomar posição e temeroso da resposta.

Como é o tipo de situação que depende de muitos outros fatores, apesar da conversa que tivemos nem eu me sinto tão disponível assim, nem ele está com tanta disponibilidade por conta da vida agitada que leva dividindo-se entre 2 cidades, estamos nos curtindo aos poucos. Se nossos encontros começarem a ganhar clima de romance, a oprtunidade vai surgir e vou acabar falando antes que o envolvimento fique grande demais. Se formos continuar nessa marcha lenta, então não vou tornar isso um drama desnecessário para não desencadear um transtorno de ansiedade. He...

Em todo caso, está sendo muito bom, ainda mais depois de uma separação traumatizante e mal resolvida que ainda envolve um bocado de hostilidade (recentemente, ao perguntar ao meu ex se ele havia feito exames e se estava tudo bem, ele disse: «Estou limpinho da silva! Pode ficar tranquilo, viu? Mesmo tendo a certeza, que pra vc, se eu fosse positivo, seria muito conveniente, pois não precisaria nunca mais usar a camisinha que vc tanto odiava!» como se eu desejasse a alguém que amei/amo tanto ser infectado e pior, que eu infectasse essa pessoa!! Além disso, eu nunca detestei usar camisinha e não me infectei por ter praticado sexo inseguro a torto e a direito).

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Crossroads

Depois de conhecer e sair duas vezes com um cara muito especial, me vejo no ponto crítico que muitos hiv+ devem enfrentar: o momento certo de dizer meu status sorológico. Como ainda não tivemos relações, estamos criando a intimidade aos poucos e está tudo fluindo com muita naturalidade. Conversamos muito, vamos explorando um ao outro com cuidado e ternura, experimentando toques, abordando temas provocantes (mas pouco polêmicos) e buscando a via de relacionamento que vá além do sexo e do prazer imediato. Estamos claramente com o desejo e a intenção de formar um vínculo mais sério do que se poderia supor entre duas pessoas que se conheceram na sala de espera de um aeroporto.
Ele confessou que seu relacionamento mais recente foi com um hiv+ e que saiu desta relação com um pouco de depressão, muito envolvido na temática da doença e da morte. Falou isso sem peso nem acusações e ainda ressaltou que a relação deste ex-namorado com seu próprio status sorológico era muito complicado, o que para ele era absolutamente compreensível, ainda que pesado. Soma-se a isso mais dois ou três casos de pessoas próximas na mesma situação, o que detonou nele uma certa paranóia com relação à morte e à finitude. Não perguntei como ou por que o relacionamento terminou e ainda me segurei um pouco mais antes de falar de meu próprio status sorológico.
Hoje deverá ser o dia. Não sei se consigo ir um pouco mais além nesta dança que iniciamos sem que ele saiba com o que está lidando. É a primeira vez que passo por isso, nunca tive que confessar a alguém com quem estivesse iniciando um envolvimento para além do sexo o meu status sorológico -- e sempre tive pânico de ter que enfrentar essa situação. Mas devo confessar que está sendo tudo tão natural e gostoso que mesmo que ele não consiga lidar com isso e esta questão se torne um empecilho à relação que nem começamos ainda, já terá sido de grande valia. É sempre bom conhecer pessoas que valem a pena num mundo em que testemunhamos com frequência a sordidez humana nas relações -- sejam elas amorosas, familiares ou profissionais.
Sinto-me como um menino pré-adolescente experimentando um de seus primeiros amores, com timidez e cuidado me aproximando do outro e sem saber o momento certo de ceder totalmente ao que me chama.

Aguarde as cenas dos próximos capítulos.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

reality shock

Recebi uma proposta para trabalhar no exterior. Não seria transferido pela minha empresa, seria uma contratação local com todos os procedimentos imigratórios de praxe.

Depois do susto inicial, o susto da perspectiva de ir para tão longe. Em seguida, a empolgação: uma experiência incrível num país totalmente diferente de tudo que eu já vi, um mega plus no meu currículo, uma possibilidade de abrir novas portas internacionalmente.

Daí, o choque: o certificado de saúde. Os sites de informação sobre o assunto afirmam que o hiv é motivo para recusa de visto e deportação.

Choque de realidade, essa que está comigo, a minha volta e dentro de mim. Esta realidade que afasta pessoas, me separa dos demais e me coloca na classe inominada dos excluídos das possibilidades que as pessoas podem ter. E do poder de escolha de qual caminho seguir.

Uma regra recente do governo daquele país ainda afirma que o hiv não pode ser mais motivo de recusa de visto de trabalho e residência, mas a teoria não necessariamente caminha de mãos dadas com a prática. E não sou eu quem vai atestar isso pessoalmente e correr o risco de sofrer na pele a recusa de um visto e encarar a possibilidade de uma deportação.

Então ficamos assim; "obrigado pelo convite, mas não posso aceitar."

E a vida continua.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Love is positive

Uma matéria interessante sobre casais sorodiscordantes e preconceito: 'Positive' love runs into negative tide (Jamaica Gleaner News)

Dicas interessantes para lidar com a situação:
  • Get to know the person who you are interested in dating. If you are considering dating someone living with HIV, you should take the time to really get to know that person and find out about his/her interests, likes, dislikes and goals. It is important to build a strong friendship with that person before rushing into a serious relationship with him. Also, make sure that you do not engage in any type of sexual activities at the beginning of the relationship.
  • Take time out of your schedule to learn about HIV. You can find information on the Internet, visit a library for books and materials, or stop by a local health centre to pick up brochures and handouts about HIV. This can help you better understand the virus before developing a close or intimate relationship with someone who has HIV.
  • Talk with your potential partner about his/her HIV status. Find out more about his/her illness, such as how often he/she visits the doctor, the medication he/she is taking, side effects experienced from the medicine, current viral load and white blood cell count. This can give you some insight on the severity of your partner's illness, daily schedule and what might be expected from you, as a partner.
  • Discuss your future relationship and be honest about your concerns. If you decide to date someone with HIV, it is important to discuss your feelings and concerns with that person. Determine the type of relationship you want to have (such as casual dating, an intimate relationship or something long-term with the possibility of marriage) and make sure the other person wants the same thing.
  • Use protection when engaging in sexual activities. HIV is transmitted through infected blood, semen and vaginal secretions, so it is important to protect yourself if you do participate in any type of sexual activity with an infected person (such as vaginal, anal or oral sex). Be sure to use a latex condom each time you have sex with someone who has HIV.
  • Know your HIV status. If you are involved with someone who has HIV, you should get tested for the virus at least once every six months.
  • Provide emotional support to your partner. Let your partner know that you are there for him/her and encourage your partner to open up and talk to you. Also, be sure to accompany your partner on doctor visits whenever you can. This shows your partner that you really do care and that you are concerned about his/her health.

World Aids Day


Um bom tempo sem postar nada aqui, mas tenho tentado organizar a vida dentro e fora. Muitas coisas aconteceram ao longo deste período, como a incrível notícia de cura de um norte-americano que recebeu um transplante de medula de um doador Delta 32, além de um novo tratamento que está sendo desenolvido utilizando «células assassinas»... o nome pirotécnico, quase hollywoodiano, revela o caráter belicoso dessa estratégia.


De resto, novas e velhas discussões sobre perspectivas de controle da pandemia no mundo todo e a grande importância de se fazer testes de hiv em massa, o impacto das ações contra o hiv e a aids no mundo e principalmente na África e a real importância das mesmas em comparação com outras questões tais como Malária, diarréia infantil etc., o aumento de infecções entre pessoas acima dos 50 anos, o aumento da sobrevida dos hiv+ na região Sudeste, nova campanha do Ministério da Saúde para o público na casa dos «enta», enfim, um tema que vem se mantendo em destaque nas manchetes do mundo todo.

Hoje, como o 20º World Aids Day, não poderia deixar de expressar a dor e as esperanças do que significa conviver com o hiv e os desafios de superar os medos e estigmas intrínsecos a esta condição. Há algumas semanas venho tentando autorização do meu plano de saúde para fazer um mero exame de contagem de CD4 sem muito sucesso, sempre enfrentando a burocracia idiota dos laboratórios e do próprio convênio que expõem os usuários a constrangimentos desnecessários. Mas também sei que meu drama não se compara em nada aos famintos e desamparados do mundo inteiro que sofrem com a miséria material e humana em todos os níveis, enfrentando a violência de uma realidade que não encontra limites para infligir tanta dor e sofrimento a milhões de pessoas. Se estou brigando com meu plano de saúde, eu tenho ao menos pelo que brigar e total condição de enfrentar este desafio, o que já é um privilégio.

Portanto, neste dia em que o mundo inteiro se mobiliza para refletir e discutir os caminhos a serem tomados no combate ao hiv e à discriminação dos hiv+, desejo que este seja um problema cada vez menor na cabeça, no corpo e na vida das pessoas -- e que a ciência consiga desenvolver terapias e recursos de prevenção que minimizem ainda mais os riscos e o sofrimento dos que convivem com este problema, direta ou indiretamente.


Deixo aqui um abraço especial ao meu amigo Taner Waterfall do blog EU e o HIV:Vivendo um Dia Após o Outro... que eu leio assiduamente e por quem cultivo grande carinho e admiração. A luta é minha, dele e de todos os que convivem com o hiv e de todos os que se importam.