sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Antes tarde do que nunca

Um grande dia para o mundo -- graças a um grande homem: 


OBAMA ENCERRA PROIBIÇÃO DE ENTRADA

DE SOROPOSITIVOS NOS EUA.


Nunca pensei que essa notícia fosse me tocar tanto, mas logo entendi por quê: saber que a maior nação do mundo (ok, há controvérsias quanto a isso...) pôs um fim à proibição da entrada de turistas e imigrantes soropositivos aumenta a esperança de que o mundo está mais um passo em direção ao fim do preconceito (=ignorância) sobre o que é o hiv, seus riscos, formas de contágio e na direção certa para conter a pandemia de hiv/aids.

Nas palavras do próprio Barack Obama:

“If we want to be the global leader in combating HIV/AIDS, we need to act like it."

“It has been nearly three decades since this virus first became known,” Obama said. “But for years, we refused to recognize it for what it was.  It was coined a ‘gay disease.’  Those who had it were viewed with suspicion.  There was a sense among some that people afflicted by AIDS somehow deserved their fate and that it was acceptable for our nation to look the other way.”

De quebra, ele renovou a lei que prevê tratamento para soropositivos de baixa renda (Ryan White HIV/AIDS Treatment Extension Act), e disse:

"[...] What we can do is to take more action and educate more people.  What we can do is keep fighting each and every day until we eliminate this disease from the face of the Earth.”


Com relação a imigrantes soropositivos, Rachel B. Tiven, diretora executiva da Immigration Equality, diz tudo:

"People living with HIV will no longer be pointlessly barred from this country.... Every day, Immigration Equality hears from individuals and families who have been separated because of the ban, with no benefit to the public health. Now, those families can be reunited, and the United States can put its mouth where its money is: ending the stigma that perpetuates HIV transmission, supporting science, and welcoming those who seek to build a life in this country."

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

“Viver com aids é possível. Com o preconceito, não.”

O tema do dia Mundial de Luta contra a Aids (1° de dezembro) de 2009 será este. 

E o beijo será o grande elo para conscientizar a população das formas de contágio e quebrar o preconceito contra os soropositivos, lembrando ao público em geral que um soropositivo tem o direito de se relacionar afetivamente.

Do site aids.gov.br:

 O beijo, no caso de um dos parceiros ter feridas ou fissuras na boca, é uma via de contágio?

 Segundo estudos, não há evidências de transmissão do HIV pelo beijo. Para que houvesse possibilidade de transmissão, seria necessário que houvesse uma lesão grave de gengiva e sangramento na boca. O HIV pode ser encontrado na saliva, porém as substâncias encontradas na saliva são capazes de neutralizá-lo. Práticas como beijar na boca, fumar o mesmo cigarro, tomar água no mesmo copo, não oferecem riscos.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Campanha em animação - a prevenção contra hiv/aids

Esta campanha está ótima por ser divertida e um tanto realista, mostrando a busca do amor e os "acidentes" de percurso que por si só já podem ser um tanto traumatizantes, a proteção contra o hiv previne um bocado da dor e do sofrimento de quem deseja simplesmente amar e ser amado. A mensagem deste vídeo é "proteja-se e viva o suficiente para encontrar o verdadeiro amor".  

 


A prevenção como um hábito que deve ser adotado desde sempre e para sempre.

Vale lembrar: contra o hiv e a aids não há vacina nem cura, a prevenção é ainda a única opção. Usar preservativos SEMPRE e evitar comportamentos de risco são fundamentais. 

Este vídeo é uma campanha da AIDES, veja aqui o site deles.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Diretamente da novela das 8

Dois depoimentos interessantes sobre viver a vida com hiv: clique aqui!



quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Cidadão Betinho

Esta frase resume a vida e a obra de Herbert de Souza, o Betinho. Encontrei por acaso um hotsite do Ministério da Saúde dedicado a este homem, uma das vítimas da aids que mais se expôs na mídia brasileira por sua luta contra a doença e o preconceito, fundador da Abia, do Ibase (foi um dos precursores da internet no Brasil!) e coordenador da Ação pela Cidadania contra a Fome e a Miséria, tendo se destacado como grande representante dos direitos do cidadão e com atuação inclusive na defesa do meio-ambiente.

No hotsite do Ministério da Saúde, é possível conhecer melhor o pai, a pessoa, o intelectual e o incansável batalhador pela dignidade humana em todos os contextos. Vale a pena dar uma olhada.

Seus textos são muito lúcidos e inspiradores, mostrando como a revolta e a desesperança não contribuem para nenhum resultado positivo.

Destaco aqui o último parágrafo de seu texto "Direitos Humanos e Aids":

Mas gostaria de terminar, dizendo o seguinte: creio que podemos transformar a tragédia da AIDS, da enfermidade e da doença num desafio, numa oportunidade, numa possibilidade de recuperar na nossa sociedade, em nós mesmos, em cada um de nós e em todos nós, o sentido da vida e da dignidade. E, com esse sentido da vida e da dignidade, seremos capazes de lutar pela construção de uma sociedade democrática, de uma sociedade justa e fraterna. 

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Muito prazer, sexo sem DST

O Ministério da Saúde lançou hoje a campanha "Muito prazer, sexo sem DST":



Depois de um levantamento que revelou que 10,3 milhões de brasileiros já tiveram algum sinal ou sintoma de DST, esta campanha visa conscientizar sobre algumas questões importantes relacionadas ao problema:

- como reconhecer os sintomas

- a necessidade de procurar tratamento

- o perigo da automedicação

- a importância de alertar o(s) parceiro(s) ou parceira(s)

- os problemas causados pelas DSTs aumentam em 18 vezes o risco de infecção pelo hiv

- os fatores de risco: homens são mais propensos a terem algum sinal ou sintoma de DST, homens que fazem sexo com outros homens têm o dobro de chance de terem DSTs e pessoas com mais de 10 parceiros na vida têm chance 65% maior de ter um antecedente relacionado a DST

Bacana mesmo é o sistema de alerta anônimo que o site disponibiliza para as pessoas que quiserem avisar a seus parceiros ou parceiras que descobriram ter DST sem se expor. O texto diz algo assim: "Oi! Não sei se essa é a melhor forma de dizer, mas descobri que tenho uma DST. Fui numa Unidade de Saúde, procurei um médico e já estou me tratando. Acho que você deveria fazer o mesmo." Simples assim. Pode parecer loucura, mas é muito difícil fazer isto e este sistema anônimo pode ajudar muito a reduzir o número de pessoas portadoras de DSTs que não se tratam.

Encontrar uma verruga ou uma lesão na região genital causa um incômodo muito grande, uma sensação de estar impuro e até mesmo uma certa vergonha. Já é difícil lidar com isso sozinho trancado no banheiro, imagine ter que ir a um serviço de saúde. Agora, imagine ter que contar isso para um parceiro! É muito difícil.

Quando eu me descobri hiv+, fiz a minha parte sem criar muito alarde: informei à pessoa que possivelmente me infectou que eu tive um probleminha de saúde na região genital depois de nossa relação e que ela deveria procurar um médico. Sem mentira nem escândalo, não entrei em detalhes, mas dei meu recado pelo messenger. (Os demais parceiros, eu avisei pelo telefone mesmo.) Nem todo mundo tem essa facilidade ou coragem, por isso um cartão virtual anônimo pode ser uma mão na roda. 

Quem achar que tem ou teve algum sintoma de DST deve procurar um profissional de saúde ou se dirigir a um dos serviços especializados em DST do SUS: veja aqui os endereços.

Então fica combinado assim: fique ligado no seu corpo; qualquer suspeita de DST, procure um serviço especializado; faça o tratamento; avise ao seu parceiro ou sua parceira para fazer o mesmo.

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UPDATE: Problemas técnicos tiraram o site do ar

Parece que o site foi um sucesso tão grande que tiveram que tirá-lo do ar para manutenção. Espero que não esteja sendo usado para brincadeiras de (muito) mau gosto, mas enfim, vamos torcer para que volte logo.

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UPDATE 2: hoje (2a. f.  24-ago-09) o site amanheceu funcionando normalmente, espero que continue assim!

http://www.aids.gov.br/muitoprazer/

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

good news


Notícia no site BBC News: a estrutura do genoma do hiv foi decodificada.

Parece que isso pode trazer grandes avanços em terapias que neutralizem a ação do bichinho ou até mesmo que venham a destrui-lo.

Acho que essa vale estourar um champã!

sábado, 18 de julho de 2009

Chega mais!


Imagine como eu, hiv+, me sinto com relação ao contato íntimo com outras pessoas. Algumas amigas que não sabem do meu status insistem em me dar estalinhos ao me cumprimentar e isso me incomoda (como reagirão o dia em que souberem?). E sei muito bem que posso representar uma grande ameaça a muitas pessoas e não as julgo por isso, há um grande estigma que pesa sobre soropositivos que gera muito medo de contato íntimo. Agora, imagine só como seria um mundo em que qualquer proximidade fosse uma ameaça, sem  necessariamente haver contato físico. É mais ou menos isso que está começando a acontecer agora.

Outro dia peguei a ponte aérea e fiquei meio apavorado. Andava pelo saguão do aeroporto e se alguém espirrasse ou tossisse, mudava minha rota para passar longe daquela nuvem de perdigotos e sabe-se lá quais outros elementos. Durante o vôo, um gajo na próxima poltrona após o corredor tossia a cada 20 segundos, uma tosse discreta e continua. Quase estendi a mão para sentir a temperatura em sua testa, mas me contive. Fui respirando cada vez mais raso, experimentando uma leve apnéia até virar-me pro lado esquerdo, onde uma senhora decidiu tossir depois de chupar uma bala de caramelo -- e fiquei tranquilo, afinal era apenas o açúcar da bala arranhando a garganta da vovó. Mas com certeza teria sido melhor viajar num avião sem tossedores.

Hoje num site de notícias: "Jovens de Osasco fogem de gripados na balada -- quem espirrar dificilmente conseguirá beijar na boca." 

Era só o que faltava: as pessoas terem mais medo de contato umas com as outras. O medo de contato íntimo-sexual dará lugar ao medo de respirar próximo de outras pessoas! Nada de cinema, teatro, shows... as pessoas terão pânico de tomar transporte público, acredito até que haverá casos de agressão a pessoas que viajem tossindo e com febre. Vai ser uma loucura!

E veja bem, as orientações são o básico de higiene e etiqueta: cobrir a boca com um lenço ao tossir e espirrar, lavar as mãos, evitar ambientes fechados com muita gente. Tudo muito razoável.

Eu cresci tomando banho de chuva e andando descalço dentro de casa e no quintal. Hoje, nos dias de frio saio do banho e coloco uma touca de lã para não pegar "friage", tento sempre ter um guarda-chuva à mão (perco uns 4 por ano), em casa uso pantufas no inverno e chinelos no verão, lavo as mãos algumas vezes por dia e agora ando com uma máscara N95 na mochila. Ah, e preciso pegar um gel de álcool antisséptico para levar comigo também! Ou seja, estou me tornando uma tia velha toda noiada e cheia de frescura!!

Que vontade de largar tudo e ir para uma praia distante, usar pouca ou nenhuma roupa, tomar banho de sol e chuva, sentir o cheiro da maresia, correr na areia descalço, dormir de janela aberta e sem muita coberta... :-)

Para descontrair um pouco:

sexta-feira, 17 de julho de 2009

sexo e hiv

Este post vem sendo escrito há meses, tendo gerado muitos outros posts, mas só agora encontrei uma forma de desenvolver este assunto sem ficar muito longo nem cansativo (espero que tenha êxito).



Há uma forma de se deter a pandemia de hiv: impedindo novos contágios com a prevenção absoluta de todas as relações sexuais. Certo? Mas há quem estenda essa noção para outras soluções um tanto, digamos, mais radicais. Por exemplo, já houve quem sugerisse colônias de hiv+ para isolar os contaminados e preservar os soronegativos, como as que fizeram para os leprosos. Já vi também idéias intrigantes, como tatuar os soronegativos de forma que as outras pessoas possam saber que se tratam de um perigo em potencial. Ok, essa idéias, além de inviáveis, tangenciam o nazismo e outras ideologias extremistas.

Mas há quem de fato acredite que a melhor forma de conter a pandemia de hiv seja perseguindo judicialmente e penalizando os hiv+ que mantiverem relações sexuais com soronegativos, expondo-os ao risco de contaminação -- isto é, sem informar seu status sorológico, mesmo que a relação sexual seja 100% protegida do início ao fim (na Nova Gales do Sul, na Austrália, o soropositivo é obrigado a revelar seu status a todos os seus parceiros sexuais). Há, inclusive, quem defenda que seja tipificado criminalmente o soropositivo ter relações sexuais com qualquer soronegativo, mesmo que ele revele seu status sorológico e o soronegativo consentir em fazer sexo com ele (protegido ou não). Pode-se perceber que há um grande número de variáveis para responsabilizar o soropositivo e há várias razões para se lidar com cada caso sem que haja um tipo legal que condene a um hiv+ a nunca mais ter relações sexuais na vida (ou que tenha que encontrar parceiros igualmente positivos). 

Exemplos como a festa em que dois soropositivos drogaram os convidados e infectaram um a um com uma seringa (!) ou de homens e mulheres soropositivos que mantiveram relações sexuais desprotegidas com diversos parceiros que ignoravam estarem sendo expostos são casos extremos. É claro que a intenção de contaminar outrem deve ser criminalizada, e o criminoso deve ser julgado e condenado por isso. Mas há tantos outros casos que não podem se enquadrar no mesmo tipo penal e deve-se ter muito cuidado para não se presumir que todo soropositivo com vida sexual ativa é um criminoso.

No Brasil, é crime expor pessoa a doença infecto-contagiosa (art. 130 e ss do Código Penal) e a letra da lei é gozada: para configurar crime, a pessoa sabe ou "deve" saber que está contaminado. Ou seja, mesmo que ela não tenha feito exame algum, se ela tiver fortes razões para imaginar que está contaminada já é suficiente para ser enquadrada no artigo 130. A intenção de infectar é uma agravante, mas tudo isso cai no velho problema de como provar o que se alega.

Aí vem o caso dos bug chasers e gift givers: afinal, se uma pessoa quiser se infectar, quem a infectar pode ser responsabilizada? Há quem considere que isso seja equivalente ao crime de auxílio ao suicídio. Há também quem considere o hiv um estado crônico controlável, não mais uma pena de morte. E isso talvez alivie a barra do giftgiver, mas ainda assim é uma questão que merece muita reflexão e bom senso. O que vale é conter essa pandemia e evitar novos casos.

Toda lei visa regular as relações sociais e interpessoais para evitar danos e prejuízos entre as pessoas, estabelecendo direitos e deveres para que a convivência seja harmoniosa -- ou pelo menos minimamente traumática. No caso de se criminalizar a transmissão de DSTs, há que se levar em consideração que um mínimo de senso de ética deve estar presente quando duas ou mais pessoas se encontram, principalmente quando há grande intimidade física e emocional envolvida.

Para haver um contágio são necessárias duas pessoas e, salvo estupro e outros casos especiais, todo soronegativo tem o poder de reduzir a quase zero suas chances de ser contaminado em relações sexuais (eu não teria me contaminado se tivesse seguido a cartilha sem infringir nenhuma regra de segurança). 

A realidade é a seguinte: há 25 anos o mundo teve que mudar, as pessoas foram obrigadas a adotar uma postura inteiramente nova no tocante à intimidade e ao exercício da sexualidade. Usar camisinha tornou-se imperativo em todas as relações e cada vez mais deve-se presumir que o outro é soropositivo mesmo que tenha na mão um papel que diga o contrário (tem a tal da janela imunológica, lembra?). Na grande maioria dos casos (relacionamentos monogâmicos serão discutidos noutro post, ok?), os contágios resultam da negligência de ambas as partes: alguém transmitiu o vírus (poderia não saber, mas deveria imaginar estar contaminado) a alguém que se expôs à contaminação (por ter confiado no outro ou por imprudência mesmo). No geral, onde há um culpado, há uma vítima com uma considerável parcela de responsabilidade pela contaminação sofrida, seja por ter cedido ao calor do momento, seja por ter estado sob a influência de álcool ou drogas, seja pela razão que for, mas todo mundo sabe que existem DSTs e que é dever de cada um se proteger delas.

(to be continued...)

quarta-feira, 3 de junho de 2009

surpresas

Então ele veio me visitar pela primeira vez depois de saber de meu status. Entrou no carro todo feliz, com uma excitação na voz que aceleradamente tentava expressar um grande fluxo de idéias e sentimentos. Disse que na noite anterior, depois de nos falarmos ao telefone, ligou a tv e estava passando o documentário do Stephen Fry, Hiv and Me (post sobre este doc aqui). "Ele é um cara do seu tempo, ele está ligado na contemporaneidade... e esta é uma doença contemporânea, temos que conviver com ela e aceitá-la até mesmo para poder combater sua propagação. Eu posso estar contaminado e nem saber, qualquer um pode!" Ele sempre consegue me surpreender! Conversamos um bocado sobre o Fry e esta questão toda, um papo que rolou naturalmente e com muito carinho de parte a parte. Ele estava certo de sua escolha: estamos juntos nessa. 

No restante do tempo, tudo fluiu naturalmente, até o sexo foi bem natural e sem neuras. Mas um dia de manhã, ao acordar, ainda de olhos fechados ele falou: "Se eu estiver positivo você vai me ajudar, me orientar como lidar com isso?" Atonitamente, perguntei: "Por que você está falando uma bobagem dessas?  Por que esse assunto agora?" E ele: "Nada, apenas penso que pode ser uma possibilidade, a gente nunca sabe...."

Não fiquei com mosca atrás da orelha até porque nosso diálogo não deixa muita margem para pirações e mensagens subliminares, então deixei rolar.

Contudo, se todos tivessem a consciência da importância de fazer o exame anti-hiv e saber seu status, com certeza muita coisa poderia mudar na progressão desta pandemia. Eu fiquei sabendo num exame de rotina, jamais esperaria um resultado positivo àquela altura. Imagino que muitas outras pessoas poderiam igualmente se surpreender e poder lidar com o problema, acompanhando a progressão da doença e evitando o pior. C. me prometeu que vai fazer o exame em breve.

Voltando ao Rio, ele foi ao clínico que atende sua família para ver uma gripe persistente e pegar pedido para o exame. Eu não sei o que o médico falou, mas detonou alguma crise nele. De alguma forma, a reação do médico fez com ele que ficasse pirado mas ele não me falou nada (passada a crise, ele só conseguiu me dizer que o médico foi "moralista").

Sem transparecer nada para mim, sem me contar nada, ele lidou sozinho com essa crise até ir ver o terapeuta dele, dois dias depois. Talvez por também ser médico, mas certamente por ter uma empatia maior com C. e não ser tão "moralista", ele conseguiu ajudá-lo a colocar a cabeça em ordem. Só então, na véspera de voltar a me ver, C. me contou que algo havia se passado, mas não entrou em maiores detalhes. Pedi que, sempre que possível, ele se abrisse comigo e falasse sobre os medos e anseios que pudessem surgir em relação ao meu status e nosso relacionamento. Mas também falei que nem sempre é possível lidar com esses conteúdos em tempo real.

Foi quando eu soube que ele teve dois sonhos (que não quis me contar em detalhes) e que ele havia se sentido incomodado porque depois de saber de meu status, ele mudou um pouco seu comportamento na cama comigo -- o que reparei e achei absolutamente normal, mas ele ficou incomodado talvez por achar que deveria ter sido mais natural -- o que neste contexto quase significaria ser menos zeloso.

Quando nos revimos, nosso reencontro correu muito naturalmente, passamos o dia juntos, estivemos em Campos do Jordão onde comemos um fondue super romântico, passamos momentos ótimos sempre conversando muito e se curtindo muito, mas não chegamos a tocar no assunto em nenhum momento. À noite, quando voltamos para casa, uma surpresinha para mim: uma sacolinha de presente cheia de camisinhas com sabor. Fiquei muito emocionado com o gesto e o cuidado dele.

Para quem não convive diretamente com o problema, pode não fazer muito sentido, mas para mim foi uma expressão de muito carinho e amor, um detalhe que pode fazer muita diferença e tornar nossa sexualidade mais natural e gostosa, sem neuras nem incômodos.

A questão do sexo oral e hiv é um tanto esquisita porque mesmo sabendo que há riscos (obviamente não mensuráveis), quase ninguém toma cuidado com a prática de sexo oral 100% protegido (do início ao fim) -- a não ser que tenha certeza que o parceiro seja realmente soropositivo. Num relacionamento sorodiscordante, tomar esse cuidado é muito importante, mas para mim foi uma surpresa ele ter vindo com essa solução criativa e gostosa de uma forma tão carinhosa: o presente era para mim, não foi um recurso que ele sacou da manga na hora H, entendem? E eu me senti realmente presenteado por saber que estou com uma pessoa disposta a estar comigo sem abrir mão do prazer nem da segurança. 

Quanto ao médico moralista, sei que há muitos por aí que não apenas não entendem a questão do hiv no contexto homoafetivo assim como há até cirurgiões que se negam a operar um soropositivo que precise de uma cirurgia. A ignorância (e consequentemente, o medo) não é exclusividade dos que não têm acesso à informação. O que torna nossa luta contra o preconceito ainda maior, pois sempre se acreditou que campanhas informativas seriam suficientes para erradicar os estigmas da doença -- um fator-chave no combate à sua disseminação.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

voando

Depois de um período de férias, precisei de alguns dias para aterrissar de verdade. Mas quando estava já me readaptando à vida real, me apaixonei e decolei de novo. E continuo nas alturas!!

Há cerca de 3 semanas, fui visitar minha família e um amigo me chamou para ir a um show e para levar mais alguém porque tinha convite sobrando. Tentei uns dois ou três amigos que não estavam disponíveis pois estava muito em cima da hora e todo mundo já tinha algum compromisso. Liguei para C., um amigo querido que conheço já há 13 ou 14 anos, e ele aceitou prontamente. Nós nos víamos esporadicamente, umas 2 ou 3 vezes ao ano e já havia rolado um trelelezinho entre nós em janeiro, mas nada além de um sexo gostoso entre amigos. Hehehehe....

Quando fui pegá-lo de táxi para irmos ao show, o vi de longe e pensei "uau, ele está muuuito interessante!" Colocamos o papo mais ou menos em dia até chegar ao local do show e lá encontramos com meu amigo e o namorado dele, já com os convites na mão. Entramos e sentamos. C. e eu pedimos umas cervejas e fomos conversando mais, colocando mais o papo em dia e eu não conseguia deixar de desejar beijar aquela boca. O show começou, tudo correndo bem e ele começou a comentar sobre algo que não estava gostando muito no espetáculo. Eu inclinei para frente para ele poder falar ao meu ouvido e quando ele começou a falar eu virei o rosto e o beijei. Ele tentou continuar a falar mas sem sucesso porque eu o beijei muito mais intensamente do que ele estava esperando. E ficou tudo por isso mesmo. Quer dizer, pelos próximos 20 minutos, porque logo ele me atacou e me beijou. O clima estava ficando quente e dali fomos tomar mais cerveja e, depois, a um motel. Um clima de total tesão romântico (ou romance tesudo?) e viramos a noite juntos. Foi incrível. Ele me deixou em casa já dia claro. 

Voltei para casa no outro dia e mantivemos algum contato durante a semana, quando ele falou em vir me visitar no fim de semana. Adorei a idéia, seria muito bom revê-lo. E ele voltou no fim de semana seguinte -- este agora que passou. Só que desta vez a coisa ficou bem mais séria e oficializamos o namoro em total clima de paixão e juras de amor eterno. Mas aí começou meu drama: o melhor momento e a melhor maneira de lhe falar sobre meu status sorológico. Titubeei diversas vezes enquanto ele esteve aqui, depois ao telefone, por email. Ontem de manhã decidi que não poderia esperar mais. Escrevi um email -- e não mandei. Mandei um sms para confirmar se ele estaria em casa e liguei para ele. Depois de algum rodeio, falei. 

Ele levou um susto, isso ficou bem claro -- também, quem não levaria? -- mas em seguida ele retomou o fôlego e falou "cara, isso para mim não muda nada, é uma situação que exige controle e cuidado, mas não muda o que sinto por você nem meu desejo de estar contigo". No fundo, eu já esperava uma reação semelhante, mas não deixou de ser impactante ouvir essas palavras -- afinal, foi a primeira vez que passei por isso na vida. Fiquei muito feliz mas lhe disse "tome seu tempo para digerir essa informação e vamos nos falando. Se você quiser conversar a respeito, me perguntar qualquer coisa, falar qualquer coisa, estou aqui". E fui fumar um cigarro (sem censura anti-tabagista, pliz!). Duas horas depois, um sms: "meu amado, vc está no meu coração. Te amo, cara." Putaquiupariu, eu não sei quando nem onde foi exatamente que eu acertei as contas com o Universo, mas pelo visto fiquei com um puta crédito com o Responsável por isso tudo.

À noite conversamos mais, ele falou que muita coisa começou a fazer sentido, minha postura durante o sexo, como eu impedia que certas coisas acontecessem e ele percebeu o quanto que eu já o vinha protegendo (ainda volto a escrever mais sobre hiv e ética). E falou que o fato de eu ter falado para ele por si só era uma grande prova de amor, como esse problema poderia ser tão pequeno em relação a algo muito maior que estamos vivendo.... nossa, foi lindo, eu fiquei passadíssimo com a postura dele, a abertura para falar sobre o assunto, sua receptividade e, acima de tudo, o amor que ele demonstrou não apenas por mim, mas pelo ser humano, pela humanidade, pelo outro, por todos. Um verdadeiro senso de alteridade amoroso e muito solidário. Ok, vocês podem dar um desconto porque estou apaixonado, mas mesmo com esse desconto é uma pessoa que tem muito a dar para o mundo, que bom que estou ao lado dele para poder receber parte de todo este amor que ele traz dentro de si.

Por isso ainda não aterrissei totalmente e espero continuar nos ares por muito tempo, muito apaixonado e muito feliz por ter encontrado uma pessoa tão incrível. Mas prometo que vou retomar a atualização do blog. 

domingo, 5 de abril de 2009

Burrocracias

Resolvi sacar meu fgts. Peguei uma declaração com minha médica e fui a uma agência da caixa longe do burburinho do business paulistano na esperança de ter um atendimento mais tranquilo e rápido. Chegando lá, a agência realmente estava bem tranquila. Pedi informação a um camarada atrás de uma mesa que perguntou se era por rescisão contratual e falei que era por doença. "Fale com o Fulano". Ok, esperei sentado numa "fila" desorganizada mas respeitada por todos que chegavam para ser atendido pelo fulano, quando um moleque de camiseta estampada e com cara e jeito de mensageiro estagiário me chamou à mesa do tal Fulano. Falei qual era o assunto e que tinha sido orientado a falar com o Fulano. O moleque falou que poderia ser com ele mesmo. Sentei esperando que pudesse mesmo.

Neste interim, o Fulano apareceu e meu atendimento foi feito pelo moleque que ia tirando dúvida com ele. Faltava um software xyz, que o moleque botou para baixar. Na mesa ao lado, um Beltrano atendia um senhor e todos olhavam para as telas dos computadores e falavam sobre os procedimentos e meu atendimento quase virou um simpósio. Até que o moleque pegou a declaração da minha médica e pertguntou ao Fulano (que deveria estar me atendendo em vez de orientar um estagiário com meu caso) "esse código daqui é o que mesmo?", referindo-se ao CID. O Fulano disse "sei lá, veja aí no guia, eu não sou dicionário, não lembro nem o que eu comi ontem!!" e todos riram e continuaram conversando alegremente.

"Putaquiupariu", pensei. "Só faltava meu atendimento ser feito de forma tão devassada". O tal programa não baixava e o moleque comentou "está tãaaaao lento...." e eu falei "pois é, e eu não posso realmente esperar taaaaaanto". Peguei meus documentos e corri para uma reunião para a qual já estava atrasado. 

Saindo da reunião, fui a outra agência da caixa, desta vez numa avenida mega movimentada, mas ainda assim a agência estava às moscas. Sempre imagino agências da cef cheias e tumultuadas com atendentes burocráticos e desinteressados. Esperei um pouco e fui atendido por um camarada mais maduro, muito simpático e atencioso que me explicou tudo, tirou todas as minhas dúvidas e demonstrou grande sensibilidade e competência, conversando sobre amenidades enquanto o processamento era feito. Um ser humano profissional e interessado, ao contrário de minhas teorias sobre repartições públicas apesar de ter tido a sorte de encontrar muita gente boa e competente exerecendo funções públicas. Senti-me à vontade para perguntar o que precisava ciente de que minha conversa com ele estava restrita àquele espaço e que ele sabia do que estava falando. Saí de lá tranquilo e aliviado por ter resolvido o assunto de forma direta e reta, sem que meu atendimento se tornasse um case para o treinamento de um molecote imaturo e sem noção e objeto de debate na agência.

A esta altura me questiono o quanto não sou paranóico demais, se não deveria relaxar um pouco e agir com mais naturalidade. Parece que eu mesmo me estigmatizo demais, que deveria ser menos duro coisa e tal. Do tipo, eu agi com muita naturalidade com o camarada que efetivamente me atendeu na outra agência, não me incomodei com nada e pude ficar relaxado durante todo o atendimento. Mas diante do ocorrido na primeira tentativa, fiquei pensando que mesmo amando o Brasil e a cidade onde moro, às vezes sinto falta da frieza ango-saxônica, daquele pragmatismo e do nível de seriedade e profissionalismo que experimentei em Londres, Nova York e Sydney, locais onde passei mais tempo do que umas breves férias.

Parece que o princípio norteador das atitudes e do comportamento da maioria dos brasileiros é um oba-oba cego e surdo e que antes fosse também mudo, mas não é. Pelo contrário, é histérico e esporrento, como os carros de som que vendem pamonhas ou compram "máquinas de lavar velhas" (sempre imaginei minha avó dando piruetas dentro d'água numa brastemp). Há uma promiscuidade energética e relacional quando o contexto exige uma postura muito mais direcionada e restrita. Pelo menos a meu ver, um banco do governo que atende pessoas com direito a benefícios por questões personalíssimas tais como falecimento, doenças e desemprego deveria ter uma conduta no atendimento muito mais séria do que pude testemunhar. Como assim "esse código daqui é qual mesmo?" na frente de outros atendentes e clientes do banco? Uma declaração médica não é foto de gol de campeonato no jogo da noite anterior e merece um cuidado um pouco maior. Fosse câncer, aids ou a doença que fosse, e ele sabe que se estou ali não é por micose na unha do dedão do pé nem por hérnia de hiato, ele não poderia expor o cliente/usuário (eu!) do sistema de benefícios do governo federal de forma tão leviana. Estou errado?

Se é possível prestar um atendimento humano e sério como o que recebi em seguida, fico satisfeito por saber que a zorra não é tão geral assim. E fico feliz por morar num país e numa cidade onde temos direitos e podemos usufruí-los dignamente, apesar de quase sempre reclamarmos do contrário. Espero que esta seja mais a regra do que a exceção.