terça-feira, 29 de julho de 2008


Esse outdoor foi criado por um estudante de Wisconsin, vencedor da segunda
rodada do concurso “What If It Were You?”.

E a luta contra o preconceito continua...
Hoje fui fazer uma consulta de rotina com uma dentista.

O comentário dela: "Dentes bem cuidados, escovação excelente, você está de parabéns..."

Que ironia... sempre cuidei muito da minha saúde. A primeira vez que tive uma doença venérea, foi logo que conheci uma namorada minha: uma secreção no pênis, que não foi diagnosticada mas que se resolveu com um antibiótico em dose única.

Na segunda vez, eu senti uma aspereza na mucosa anal e um amigo dermatologista me examinou e ficou impressionado, como eu senti microverrugas de hpv, a maioria dos pacientes chega com um quadro bem mais avançado. Eu fiquei péssimo e ele disse que não era para me apavorar, não significava que eu tivesse me exposto demais nem era razão para eu me preocupar... Como eu sempre me protegi muito, fiquei muito chateado com aquilo e fiz o tratamento com proctologista, me livrando das verrugas bem mais rápido do que o previsto.

Mas como a vida prega peças, acabei me descobrindo, anos depois, hiv+. Desde então, mantive todos os cuidados e redobrei a atenção.

Há uns dois meses, tive um pequeno episódio de herpes no pênis. Putaquiupariu! Nunca havia tido herpes na vida, tinha que surgir agora? Tenho me comportado como uma freira comportada (há as que não se comportam...) e ainda me aparece isso? Entrei em pânico, com medo de ser sinais da "doença". Consegui limpar a área rapidamente sem aciclovir nem nenhum outro remédio para herpes, somente usei um fitoerápico pernambucano e gel de aloe vera da Forever Living.
Há umas duas semanas, novas vesículas começaram a surgir, para o meu terror... Conversando com um amigo médico, não é nada para me preocupar, meu corpo está reagindo e criando os anticorpos.

Superando a neura, não posso deixar de pensar o quanto que sofro com o medo de desenvolver a "doença" e enfrentar quadros duros de se controlar.

Outro dia, recebi um email de um site internacional de relacionamentos para hiv+. Era o contato de um cara de São Paulo de 25 anos. Como nem lembrava desse perfil nesse site, nem estou à procura de relacionamento, demorei a responder (tive que recuperar a senha) e logo eliminei o perfil do tal site. Conversamos brevemente sobre hiv etc. Ele descobriu ser soropositivo e começou a tomar o coquetel em seguida. Teve uma reação brutal, precisou de 40 dias de licença para contornar os efeitos, incluindo manchas vermelho-sangue por todo o corpo. Para piorar, após algum tempo, sua carga viral voltou a aumentar e a medicação teve que ser trocada. Com a nova medicação, tudo funcionando bem!

Caramba, trocar experiências com outros hiv+ é incrível, mas confesso que fiquei muito apavorado... acho que me nego ao máximo encarar o que vem pela frente...

Coisa boa: ele me recomendou uma infectologista aqui em Sampa. Devo ir depois de amanhã, depois eu conto.

terça-feira, 22 de julho de 2008

ELEVEN THINGS I HAVE LEARNED FROM
LIVING WITH HIV FOR OVER 20 YEARS

by
Dennis de Leon

1. BE THE BEST INFORMED PERSON YOU KNOW ABOUT MEDICAL TREATMENTS. EVERY YEAR, DOUBLE YOUR KNOWLEDGE ABOUT THE DISEASE, HOW IT GROWS AND HOW IT CAN BE DEFEATED.

2. BE AGGRESSIVELY INVOLVED WITH CLINICAL TRIALS BECAUSE THEY OFFER THE REGULAR HEALTH MONITORING AND ACCESS TO NEW MEDICATIONS. DEVELOP THE ABILITY TO TELL WHEN YOU ARE GETTING A PLACEBO AND, IF YOU WANT, OPT OUT OF THE TRIAL.

3. LIVE LIKE YOU ARE GOING TO DIE TOMORROW. TRY THINGS YOU NEVER DREAMED OF AND STOP “RESUME BUILDING.” DO THINGS YOU ENJOY AND THAT PAY YOU SOMETHING FOR DOING IT. SO IF YOU DIE YOU WERE AT LEAST DOING WHAT YOU WANTED.

4. SEE THE BEAUTY OF THINGS AND PEOPLE AROUND YOU AND IF THEY DO NOT APPEAR BEAUTIFUL, WORK HARDER TO SEE THE BEAUTY IN THEM. WHY? BECAUSE BEAUTY CAN SUSTAIN YOU.

5. NEVER BECOME A “VICTIM” OR THE DESIGNATED PERSON WITH AIDS IN THE ROOM. YOU ARE MORE THAN THAT AND SHOULD NOT BE DEFINED BY A DISEASE. YOU ARE NOT A VIRUS SO DON’T ACT LIKE ONE.

6. MAKE YOUR FAMILY PROUD. MY WAY WAS TO GIVE THEM NEWS OF THINGS I ACCOMPLISHED, NEWS WITH MY NAME IN IT SO THEY CAN CIRCULATE THE WORD TO ALL THE EXTENDED FAMILY AND FRIENDS. GOD KNOWS I HAVE PUT THEM THROUGH GRIEF SO MUCH GROWING UP. THEY DESERVE AT LEAST A FEW BRAGGING POINTS. ALL THEY REALLY CARE ABOUT IS THAT YOU WERE VALUABLE AND VISIBLE TO OTHERS AND THAT IT REFLECTS WELL ON THEM.

7. DEVELOP AN ACTIVE SENSE OF OUTRAGE AND ENCOURAGE OTHERS TO DO SO. THIS IS SO CRITICAL. PEOPLE WILL THINK YOU ARE ASLEEP UNLESS YOU SHOUT BOO TO THE POWERS THAT BE AROUND YOU ONCE IN A WHILE. IF YOU ARE NOT OUTRAGED BY INJUSTICE THEY WILL BURY WITH INDIFFERENCE, BUREAUCRACY AND PITY BEFORE YOU ARE DEAD.

8. SPREAD LOVE WHERE EVER YOU GO. NO ONE LIKES YOU IF YOU ARE ANGRY OR REGRETFUL ALL THE TIME. KISS, HUG, REWARD, SURPRISE, AND DO ALL THESE AND MORE LOVING THINGS TO COMPLETE STRANGERS AND ACQUAINTANCES IN YOUR LIFE. FOR EXAMPLE, LOVE IS TO GET ON AN ELEVATOR AT THE FIRST FLOOR AND CONNECT WITH EVERYONE BEFORE YOU GET OFF AT YOUR FLOOR.

9. SEE THE CONNECTIONS. NEVER THINK YOU ARE THE ONLY ONE. YOUR NEW FAMILIES ARE PERSONS WHO BECAME INFECTED THROUGH DRUG USE, INDIGENT GAY MAN OR TRANSGENDERED PERSONS AND WOMEN WHO TRUSTED THEIR SEX PARTNERS. THE SHAME, PRIDE, PAIN, SCORN AND FIGHT FOR RESPECT OF ALL THESE GROUPS MUST BECOME YOURS BECAUSE YOU ARE PART OF THEIR WORLD.

10. DON’T FORGET SEX. IT FEELS GOOD AND CAN BE DONE SAFELY. DON’T STOP DOING IT EVEN WHEN YOU ARE LIVING WITH HIV/AIDS. IT’S AS MUCH A PART OF LIFE AS SPRING IS A SEASON.

11. IN ALL OF OUR STRUGGLES FOR FAIRNESS AND EQUALITY REMEMBER THIS: THERE ARE NO PERMANENT FRIENDS OR PERMANENT ENEMIES ONLY PEOPLE SHARING COMMON INTERESTS.

Via Regan's POZ Blog

terça-feira, 8 de julho de 2008

surpresas da vida

Hoje eu estava conversando pelo messenger com um ex-namorado francês. Desde que nos vimos pela última vez, há 5 anos, falamo-nos pouco, mas ficou sempre um carinho muito grande guardado e os contatos que tivemos por telefone e por email foram muito calorosos.
Conversamos um bocado sobre a vida, atualizando as novidades de cada um: onde estamos morando, o que temos feito etc.
Lá pelas tantas, falei para ele: você ainda não me falou TUDO sobre sua vida, pode contando os detalhes. Sei lá por que disse isso, mas queria saber mais mesmo da vida dele.
Ele levou um tempo para escrever e eu meio que pressentia o que ele estava prestes a me contar: terminou relacionamento, altos e baixos e recentemente descobriu ser hiv+.
Meu coração acelerou, eu levei um susto, pedi para ele parar tudo, respirei, perguntei como assim?, falei que estava impactado e que não acreditava no que ele estava me dizendo. Parecia que eu já imaginava isso, mas meu susto foi tão grande que ele me pediu desculpas por ter falado de maneira tão direta, que não havia outra forma de dizer tal coisa etc. Rapidamente eu falei que ele não precisava pedir desculpas e lhe falei de meu status. Aí o susto foi dele, que ainda perguntou por que eu nunca lhe dissera. Expliquei que não saio divulgando isso aos 4 ventos, que obviamente acabaria dizendo algum dia, mas pela distância e pelos contatos muito raros, não houve razão para que eu falasse. Ele entendeu e falou que ele também é muito reservado quanto ao status dele.
Daí pra frente, conversamos sobre o assunto, sobre a nova realidade, o medo da rejeição, os medos em geral. Foi engraçado, um tentando colocar o outro para cima, ajudando o outro a romper com seus próprios preconceitos e barreiras...
Uma coisa que ele falou que me tocou: há alguns meses lhe enviei uma foto minha que ficou muito boa. Ele recebeu e não teve coragem de responder, como se fosse um símbolo de uma outra vida que ele não poderia ter de novo. Foi mais ou menos na mesma época em que ele descobriu ser hiv+ e a minha foto era a lembrança de um outro tempo, de uma outra vida. Entendi perfeitamente, também sinto isso: um tempo em que tínhamos escolha, quando havia maior liberdade para viver as experiências.
Pensei nisso, no que significava essa "liberdade" -- que acabamos aproveitando mal (deixando de nos cuidar?), mas também por que essa liberdade havia acabado.
Afinal de contas, de onde vêm as barreiras que cerceiam essa "liberdade"? E mais: que liberdade é essa que acreditamos ter e que, pior!, acreditamos perder?
Na era do consumo, blá blá blá, hedonismo, blá blá blá, prazeres e relacionamentos descartáveis, blá blá blá, acreditamos que tudo pode ser usado e dispensado, como se as relações, as coisas, os afetos e até mesmo as pessoas fossem descartáveis, como se nós mesmos fôssemos recicláveis, autolimpantes. Uma experiência é apenas uma experiência, entra para um banco de dados e logo pulamos para o próximo registro. Sem qualquer moralismo (seria hipócrita de minha parte), usamos nossos corpos, afetos e relações de maneira irresponsável sim. A fidelidade conjugal está sendo relativizada até o limite, o sexo casual está se tornando uma prática corriqueira, os encontros e desencontros estão cada vez mais rápidos. O processo de se criar um relacionamento está truncado, as etapas de formação da intimidade estão invertidas e quando não dá certo (surpresa!) logo partimos para outra. Hoje o que eu mais ouço é: "ninguém quer nada sério", mas esse "ninguém" nunca inclui o declarante.
Quando falamos da perda da liberdade que acreditávamos ter, falamos de uma posição confortável, da qual se pode experimentar coisas e pessoas e sempre manter abertas muitas portas à nossa frente. Por conta dos estigmas da doença e de toda a rejeição a que estamos expostos, estas portas se fecham e saímos do nosso conforto.
Mas o engano começa antes mesmo de o hiv entrar em nossas vidas. Tal liberdade não existe. Simplesmente continuamos com os mesmos medos que sempre tivemos, com o agravante fator hiv+ que requer uma abordagem mais responsável e cuidadosa em relação a nós mesmos e ao outro. Mas essa responsabilidade e esse cuidado não deveriam estar condicionados ao status hiv.
Sério, consciente da necessidade de lutar contra toda carga de culpa, senti em muitos momentos que o hiv vem apenas me mostrar o que eu já deveria saber desde sempre: é preciso respeitar meu corpo, minha integridade física e emocional, a saúde dos meus relacionamentos; é preciso reconhecer o outro como digno do mesmo respeito e a relação que surge do encontro como algo quase sagrado do que há de mais belo entre dois seres humanos -- o potencial de se cultivar amor e criar uma nova realidade, uma nova vida. E o impacto desse amor sobre as outras pessoas.
Não somos tão livres se estamos presos a condicionamentos e instintos. Logo, não se pode perder o que não se tem. Liberdade é aprender a amar verdadeiramente a si mesmo e ao outro. Não há amor que não seja libertador. E esse amor, quando surge, não se limita por nada, nem mesmo por um vírus. Assim espero.
Uma história interessante e intrigante sobre a jornada de um homem até se descobrir soropositivo. Um pouco longa, mas vale a leitura:

sexta-feira, 27 de junho de 2008

hiv strikes back

De acordo com estudos do Ministério da Saúde, a população gay e de homens que fazem sexo com homens (HSH) tem 11 vezes mais chances de contrair o vírus HIV do que a média dos homens heterossexuais. Enquanto, entre a chamada "população em geral” de 15 a 49 anos, a taxa de incidência é de 19,5 casos a cada 100 mil habitantes, a população gay e HSH contabilizaria 226,5 por 100 mil.


Desde o surgimento da aids, o movimento glbt batalhou para descaracterizá-la como doença gay. O título "paciente zero", atribuído a um comissário de bordo canadense que teria disseminado a doença em São Francisco, foi duramente criticado. Por anos, o perfil da doença foi mudando, o conceito dos "grupos de risco" foi perdendo a força e o hiv/aids deixou de ser a doença de drogados, gays etc.

De alguns anos para cá, depois de um crescimento considerável de casos de contaminação entre heterossexuais (na segunda metade do anos 90), as autoridades de saúde pública voltaram a chamar a atenção para os novos casos entre jovens gays. Em 2002, um surto de sífilis e gonorréia entre jovens homossexuais de Nova York alarmou as autoridades para o que viria pela frente e hoje se constata em números ainda imprecisos: os gays são novamente um grupo relevante no que respeita os novos contágios de hiv, com aumento de número de contaminados que varia de 70 a 85 % dos novos casos.

Com o surgimento dos arv's, as pessoas começaram a relaxar quanto à prevenção (afinal, o diagnóstico hiv+ não é mais uma sentença de morte, right?). Logo que começaram as notícias sobre os bug chasers, a volta do barebacking já era percebido até mesmo nas produções pornográficas gays, que desde os anos 80 eram um exemplo até mesmo para as produções heterossexuais pois todos os atores usavam camisinha ao menos nas cenas de penetração e não havia contato oral com o esperma. Hoje, as produções de barebacking são numerosas e já há um caso na Inglaterra onde alguns atores se contaminaram durante a produção de um filme. A ciência andou algumas casinhas para frente, mas o comportamento das pessoas mostra que estamos andando algumas casinhas para trás!

Obviamente, a luta contra o estigma de doença gay visava principalmente rechaçar o discurso do establishment moralista-religioso de igrejas cristãs e entidades pró-família blá blá blá, segundo o qual a doença seria um castigo pelo comportamento diabólico, anti-cristão blá blá blá. Uma coisa é um fato concreto: os gays são mais hedonistas e buscam o prazer sexual de forma mais intensa e inconsequente em saunas, quartos escuros etc. Outra coisa, é afirmar que a doença é um castigo divino e que os gays estão condenados ao inferno blá blá blá, até por que o que se poderia falar das lésbicas? Elas não são tão relevantes nas estatísticas porque seu pecado é menos grave? E as mulheres e crianças da África subsaariana, são condenadas pelo fato de serem negras e inocentes? O argumento religioso é uma piada, claro...

Portanto, vale ressaltar o seguinte: os novos casos estão concentrados em jovens gays que não testemunharam o terror causado pela doença nos anos 80 e início dos 90 (os casos entre gays mais velhos está caindo); adolescentes gays não procuram atendimento médico na rede pública por medo de preconceito; o surgimento dos arv's está encorajando a prática de sexo inseguro; entre os heterossexuais, as meninas respondem pela maioria dos novos casos.

Uma informação importante é que se prevê uma queda considerável na produção de novos medicamentos contra o hiv/aids. Depois do boom que testemunhamos nos últimos 15 anos, a perspectiva de grandes novidades é muito pequena e não se sabe no que isso pode resultar num prazo médio-longo. Os laboratórios já estão lucrando e não há novas grandes linhas de pesquisa que dêem esperanças de uma verdadeira cura.

Todos devem aderir aos meios de prevenção. Transar sem camisinha não pode ser prova de confiança e amor nem uma fonte de prazer imediato. Sexo sem camisinha pode ser bom, mas sem hiv é melhor!

======================================

Enquanto isso em Roma...

O Papa Bento XVI, o papa do novo milênio, prega contra o uso da camisinha e o estilo de vida dos homossexuais...

A decadência moral, religiosa e política da igreja católica será corrigida com essa postura de sua autoridade máxima?

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Lost Boys+


Esta noite sonhei que era um vampiro.
Havia muitas outras pessoas no sonho, poucas conhecidas, que iam se tornando vampiros quando eram mordidas. Era como uma praga que se disseminava. E como tal, o status de ser vampiro era claramente ligado ao hiv: um vampiro era um hiv+ que, ao morder um não-vampiro/hiv-, este se tornava vampiro/hiv+. Assim, se formava um exército de vampiros/hiv+. Coisa de filme.

Fez-me lembrar de um sonho que tive há alguns meses. Estava dormindo com o ex. Sempre dormíamos despidos e abraçados. Uma noite, dormíamos assim e sonhei a noite toda que estávamos dormindo daquele jeito quando o tesão nos acordou e transamos. Isso nunca aconteceu, não éramos de acordar no meio da noite para transar. Mas no sonho, mal-acordados, transávamos sem camisinha. No fim da transa, o choque: transamos sem camisinha! E agora? Pânico!
Meu medo de contaminá-lo sempre foi muito grande. E ele também tinha esse medo, sempre tomávamos muito cuidado e conseguíamos ter prazer apesar da neura do contato. Lembro perfeitamente que ele nem tocava no meu esperma, afastava seu corpo, suas mãos, a cada vez que eu estava prestes a ejacular sobre mim mesmo.
Uma vez, ao mudarmos de posição, a camisinha saiu. Foi muito rápido, por menos de 5 segundos o penetrei sem a camisinha no lugar. Mas deu aquele pânico nele, eu o acalmei e falei que havia acabado de acontecer. Conversamos depois sobre o assunto e passou a neura. Fiquei muito mal...
Esse medo é uma constante. Uma das minhas neuras de relacionamento hoje não é apenas ser aceito como hiv+, mas também o de expor alguém ao hiv.

domingo, 1 de junho de 2008

Choque de galáxias


Quando eu era pequeno, um pesadelo constante vinha me aterrorizar todas as noites: como vagando pelo espaço, num movimento em espiral, eu ia sumindo no vazio. Aquela sensação vertiginosa de sumir no nada me fazia acordar assustado, com o coração acelerado. E eu tinha 4 ou 5 anos, não mais que isso.

Os conceitos de finitude e infinitude eram assustadores. A idéia de que uma existência muito maior e mais ampla do que meu limitado mundo familiar -- minha casa, meus pais, meu irmão mais velho -- assustava porque incompreensível. Por outro lado, a possibilidade de finitude, o medo de que aquilo que me era familiar e concreto pudesse terminar -- meus pais morrerem e, posteriormente, minha própria morte, o fim da existência, o fim do mundo -- era igualmente incompreensível. O medo da morte.

Vagando pelos canais da tv a cabo, fui parar num programa sobre o futuro de nosso universo, o caminho que percorremos rumo ao trágico fim do choque das galáxias, a morte do Sol e a transformação fatal de todo o universo. Uma perspectiva nada positiva para os próximos bilhões de anos... Há alguns anos, eu teria perdido a noite de sono pensando nesse fim trágico.

Lidar com a finitude -- a morte -- era aterrorizante para um menino que precisava crer na eternidade da vida que mal havia começado a conhecer. E o que viria depois? Além da decomposição do corpo físico, o que haveria do outro lado? Escuridão? Silêncio? Frio?

Como não tive uma formação religiosa (que facilita e simplifica essas questões), consegui encontrar respostas para essas perguntas aos poucos, com uma intensa busca espiritual e filosófica. Com o estímulo de meu irmão, por exemplo, refleti sobre a realidade como algo efêmero e ilusório. Uma noite, antes de dormirmos, já com as luzes apagadas, meu irmão veio com o seguinte papo: "você já pensou que nosso mundo pode ser simplesmente o sonho de alguém? Tudo isso é apenas um sonho de alguém que pode acordar a qualquer momento..." E eu, aos 8 anos, entrei em contato com Maya graças ao meu irmão 4 anos mais velho e que dormiu tranquilamente enquanto eu lutava contra a idéia de que tudo poderia terminar a qualquer momento. Difícil preservar a inocência assim...

Hoje, meu irmão acordou deste "sonho" e vive noutra realidade (ou não?) e já não me angustio da mesma maneira com essa possibilidade tão ameaçadora.

Não há um dia em que eu não me lembre que dentro de mim percorre um vírus que pode abreviar tudo isso -- e esse "sonho" terminar. O que assusta não é a brevidade com que isso pode acontecer, mas o processo doloroso até o fim. Não estou sendo pessimista nem estou acometido por uma negatividade colossal. Aos 5 anos de idade, era preciso acreditar na infinitude da vida; aos 20, buscava a infinitude do momento; hoje, espero aproveitar cada momento com qualidade (não intensidade).

E isso deveria valer para toda e qualquer pessoa: aproveitar com qualidade cada dia, não contando com a quantidade do porvir para gozar o que se espera e deseja. Para mim, é uma atitude que tento manter a todo custo.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

escolhas


Hoje eu tava falando com meu ex, com quem convivi durante 10 anos. Ele falou algo que foi doloroso para ele após nossa separação e eu meio que me senti culpado pela escolha de ter me separado dele, como se eu fosse responsável por seu sofrimento. Por outro lado, sempre me reporto a escolhas feitas antes da minha soroconversão para ver onde errei. Quanta culpa carregamos na vida!
Conversamos longamente sobre nosso processo de separação, encontros e desencontros. Mas o que foi mais esclarecedor mesmo, ao menos para mim, foi como fiz escolhas na vida das quais de alguma forma me arrependo hoje -- ou simplesmente não compreendo porque fiz tais escolhas e escolheria diferente se pudesse voltar atrás E teria escrito a história da minha vida de outra forma, o que logicamente excluiria o hiv da minha vida.
Bom, ficou claro como me sinto culpado por ter me separado dele daquela forma e por toda a dor que causei. Mas também me sinto culpado por ter me infectado e como uma simples escolha teria evitado isso tudo.
No restrito mundo de nossas carências, vivemos em função de necessidades muito básicas: carinho, amor, atenção, afeto, poder etc. À medida que amadurecemos, essas necessidades mudam de cor, nome e forma, mas continuam sendo necessidades muito básicas. Não vamos além dessas necessidades, apenas sofisticamos a maneira como as expressamos e apresentamos. E o ego tem um papel crucial na busca da satisfação dessas necessidades básicas. Damos nomes elaborados a coisas simples, vemos um castelo onde há uma barraca de campanha. Chamamos de amor o que não passa de um band-aid. E nos satisfazemos com o que atende superficialmente nossos sentidos e nossas expectativas mais imediatas.
E as sequelas são igualmente equivocadas: uma desilusão "amorosa" não passa de uma chupeta que pacifica desejos sem preencher os anseios da alma, uma frustração não passa de um pequeno desafio ao nosso ego em busca de auto-afirmação.
Dimensionar o que é realmente importante é muito difícil. Fazer escolhas conscientes e arcar com as consequências das mesmas é mais difícil ainda. Aceitar o impacto dessas escolhas é quase impossível quando isso se traduz num novo modo de se viver, relacionar e poder fazer novas escolhas.
Tudo na vida traz um aprendizado. Os relacionamentos são o laboratório mais importante de que dispomos. O hiv é um dos resultados mais difíceis de se lidar e superar.
Fazemos escolhas; deveríamos arcar com as consequências. O difícil é ir além disso tudo e ver que escolhas são feitas através de nós, que cada desvio em nosso caminho, cada desafio inesperado não é um castigo ou uma reprimenda divina ao nosso comportamento, mas apenas um pequeno nó a ser desfeito conscientemente -- independente das consequências que ele possa ter.

Choice is the essence of what I believe it is to be human.
Liv Ullmann

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Stephen Fry: HIV & Me

"It feels better without a condom? It feels a lot better having sex without hiv!"

Em seu documentário produzido pela BBC, Stephen Fry mostra a realidade atual do hiv/aids no Reino Unido e no mundo. Além de dados estatísticos sobre o aumento do número de infecções entre heterossexuais e jovens gays (que acreditam que o pior que pode acontecer é terem que tomar um comprimido por dia!!), ele mostra a realidade de quem convive com o vírus há mais de 20 anos, vai à África do Sul ver de perto a política governamental no combate e no tratamento do hiv, revisita Uganda e São Francisco, visita hospitais e conversa com médicos e ativistas sobre acesso a novos medicamentos e campanhas de prevenção.

Entre depoimentos esperançosos, histórias tocantes e muita reflexão sobre o por quê de tantos novos casos a cada ano, o documentário desmistifica a crença de que com os medicamentos o hiv deixou de ser um problema -- mas também mostra como hoje o diagnóstico hiv+ não é mais uma sentença de morte dolorosa e sofrida.

Dentre alguns momentos realmente emocionantes do documentário, fiquei especialmente tocado pelas mães hiv+ de Uganda. Lá, elas fazem um livro de memórias para seus filhos, uma espécie de diário com fotos, mensagens estimulantes, histórias familiares e tudo que elas gostariam que os filhos soubessem já que elas não estarão mais com eles nem os verão crescer. Difícil de acreditar, mas o Memory Book feito por essas mães com tanto carinho e resignação é a forma que elas encontraram de estarem presentes na vida de seus pequenos depois que a aids der cabo de suas próprias vidas. Uma frase que aparece num desses livros diz assim: "você é responsável pela sua vida e pela vida de seu irmão". Vai dormir com esse barulho...

Fry ficou chocado com o preconceito sofrido pelos hiv+ e como os estigmas da doença ainda criam uma barreira de ignorância entre os britânicos (e no resto do mundo também, claro). Uma jovem e linda moça hiv+ fala de sua tristeza por acreditar que viverá o resto de seus dias sozinha (já que nenhum homem terá coragem de topar a parada ao seu lado) -- o que ele chama de "crise social do hiv", agora mais grave do que a "crise médica" já que as enfermarias especializadas deixaram de acumular dezenas de doentes esperando a morte.

Uma senhora hiv+ que diz em suas palestras para adolescentes que a cara do hiv é a "vovozinha sentada ao seu lado no trem", casos milagrosos de crianças que nasceram com o hiv e conseguiram sobreviver até as primeiras terapias anti-retrovirais garantirem uma vida quase normal, histórias trágicas de quem criou resistência aos medicamentos existentes, casais sorodiscordantes e crianças hiv- nascidas de pais ou mães hiv+. A dureza da realidade sempre amenizada com um pouco de esperança.

Fry ainda conclui que as campanhas devem incentivar as pessoas a fazerem o exame anti-hiv (1/3 a 1/2 dos britânicos hiv+ não sabem de sua condição) e enfatizar a importância da prevenção sem reforçar os estigmas da doença. Mais e mais pessoas são infectadas todos os anos e não lhes faltam informação -- apenas consciência.

quarta-feira, 7 de maio de 2008

hiv e internet

Este artigo da Poz Magazine fala da relação entre a mudança causada pela internet no comportamento de homens gays e bissexuais e o aumento do número de novas infecções pelo hiv -- que, em NY, foi de 32% entre 2001 e 2006.
Um fator interessante é a amnésia cultural sobre a epidemia, já que os jovens de hoje não sofreram o impacto dos primeiros anos da aids e iniciaram a vida sexual na era dos ARVs. Outro fator importante, é que os jovens não estão fazendo exame de hiv -- e a maior parte das infecções é causada por pessoas hiv+ ainda nos primeiras semanas de infecção, quando ainda acreditam estarem negativas e com a carga viral muito alta. Após o diagnóstico, os hiv+ deixam de ter sexo desprotegido com parceiros hiv- ou que desconheçam seu status e muitos procuram outros hiv+ como parceiros sexuais. E muitos homens hiv- acreditam que a prática de sexo anal desprotegido é segura (ou oferece menos risco) se desempenharem o papel ativo na relação.
Como a internet facilita o encontro entre pessoas que buscam a mesma coisa, pulando as etapas normais de uma aproximação (e, na minha opinião, criando uma imagem ilusória daquele que está do outro lado), o sexo casual tornou-se mais comum e mais casual.
A intensificação da atividade sexual dos homens gays aumenta a chance de vacilos na prevenção de DSTs. Um grupo de jovens gays de 20 anos teriam em 1995 2,39% de se infectarem. Em 2005, esse número aumentaria para 30% !!! E em 2015, quando chegassem aos 40 anos, 40% seriam hiv+. Ou seja, a internet não faz com que as pessoas assumam mais riscos, mas simplesmente elas fazem mais sexo e acabam se expondo mais.
O que vem sendo feito até agora para ampliar a consciência dos riscos de contágio e da importância da prevenção tem se mostrado ineficaz. É preciso encontrar uma maneira de abordar os internautas gays para educá-los sobre meios de contágio, a importância de realizarem o exame de hiv, de usarem o preservativo e sobre outras DSTs, como herpes, sífilis, hpv e hepatite C.


G. I Jonny -- Campanha online da BBC
voltada para jovens de 16 a 24 anos

terça-feira, 6 de maio de 2008

Jogo: Pos or Not

Jogo criado pela Poz Magazine (link ao lado) para lutar contra os estigmas e o preconceito relacionados ao hiv/aids.
Joguei um pouco e me flagrei com meus próprios preconceitos. TODOS temos um longo caminho pela frente nesta luta. É importante saber as histórias daqueles que convivem com o hiv -- e saber que não estou sozinho nesta.