terça-feira, 8 de julho de 2008
surpresas da vida
Conversamos um bocado sobre a vida, atualizando as novidades de cada um: onde estamos morando, o que temos feito etc.
Lá pelas tantas, falei para ele: você ainda não me falou TUDO sobre sua vida, pode contando os detalhes. Sei lá por que disse isso, mas queria saber mais mesmo da vida dele.
Ele levou um tempo para escrever e eu meio que pressentia o que ele estava prestes a me contar: terminou relacionamento, altos e baixos e recentemente descobriu ser hiv+.
Meu coração acelerou, eu levei um susto, pedi para ele parar tudo, respirei, perguntei como assim?, falei que estava impactado e que não acreditava no que ele estava me dizendo. Parecia que eu já imaginava isso, mas meu susto foi tão grande que ele me pediu desculpas por ter falado de maneira tão direta, que não havia outra forma de dizer tal coisa etc. Rapidamente eu falei que ele não precisava pedir desculpas e lhe falei de meu status. Aí o susto foi dele, que ainda perguntou por que eu nunca lhe dissera. Expliquei que não saio divulgando isso aos 4 ventos, que obviamente acabaria dizendo algum dia, mas pela distância e pelos contatos muito raros, não houve razão para que eu falasse. Ele entendeu e falou que ele também é muito reservado quanto ao status dele.
Daí pra frente, conversamos sobre o assunto, sobre a nova realidade, o medo da rejeição, os medos em geral. Foi engraçado, um tentando colocar o outro para cima, ajudando o outro a romper com seus próprios preconceitos e barreiras...
Uma coisa que ele falou que me tocou: há alguns meses lhe enviei uma foto minha que ficou muito boa. Ele recebeu e não teve coragem de responder, como se fosse um símbolo de uma outra vida que ele não poderia ter de novo. Foi mais ou menos na mesma época em que ele descobriu ser hiv+ e a minha foto era a lembrança de um outro tempo, de uma outra vida. Entendi perfeitamente, também sinto isso: um tempo em que tínhamos escolha, quando havia maior liberdade para viver as experiências.
Pensei nisso, no que significava essa "liberdade" -- que acabamos aproveitando mal (deixando de nos cuidar?), mas também por que essa liberdade havia acabado.
Afinal de contas, de onde vêm as barreiras que cerceiam essa "liberdade"? E mais: que liberdade é essa que acreditamos ter e que, pior!, acreditamos perder?
Na era do consumo, blá blá blá, hedonismo, blá blá blá, prazeres e relacionamentos descartáveis, blá blá blá, acreditamos que tudo pode ser usado e dispensado, como se as relações, as coisas, os afetos e até mesmo as pessoas fossem descartáveis, como se nós mesmos fôssemos recicláveis, autolimpantes. Uma experiência é apenas uma experiência, entra para um banco de dados e logo pulamos para o próximo registro. Sem qualquer moralismo (seria hipócrita de minha parte), usamos nossos corpos, afetos e relações de maneira irresponsável sim. A fidelidade conjugal está sendo relativizada até o limite, o sexo casual está se tornando uma prática corriqueira, os encontros e desencontros estão cada vez mais rápidos. O processo de se criar um relacionamento está truncado, as etapas de formação da intimidade estão invertidas e quando não dá certo (surpresa!) logo partimos para outra. Hoje o que eu mais ouço é: "ninguém quer nada sério", mas esse "ninguém" nunca inclui o declarante.
Quando falamos da perda da liberdade que acreditávamos ter, falamos de uma posição confortável, da qual se pode experimentar coisas e pessoas e sempre manter abertas muitas portas à nossa frente. Por conta dos estigmas da doença e de toda a rejeição a que estamos expostos, estas portas se fecham e saímos do nosso conforto.
Mas o engano começa antes mesmo de o hiv entrar em nossas vidas. Tal liberdade não existe. Simplesmente continuamos com os mesmos medos que sempre tivemos, com o agravante fator hiv+ que requer uma abordagem mais responsável e cuidadosa em relação a nós mesmos e ao outro. Mas essa responsabilidade e esse cuidado não deveriam estar condicionados ao status hiv.
Sério, consciente da necessidade de lutar contra toda carga de culpa, senti em muitos momentos que o hiv vem apenas me mostrar o que eu já deveria saber desde sempre: é preciso respeitar meu corpo, minha integridade física e emocional, a saúde dos meus relacionamentos; é preciso reconhecer o outro como digno do mesmo respeito e a relação que surge do encontro como algo quase sagrado do que há de mais belo entre dois seres humanos -- o potencial de se cultivar amor e criar uma nova realidade, uma nova vida. E o impacto desse amor sobre as outras pessoas.
Não somos tão livres se estamos presos a condicionamentos e instintos. Logo, não se pode perder o que não se tem. Liberdade é aprender a amar verdadeiramente a si mesmo e ao outro. Não há amor que não seja libertador. E esse amor, quando surge, não se limita por nada, nem mesmo por um vírus. Assim espero.
sexta-feira, 27 de junho de 2008
hiv strikes back
De acordo com estudos do Ministério da Saúde, a população gay e de homens que fazem sexo com homens (HSH) tem 11 vezes mais chances de contrair o vírus HIV do que a média dos homens heterossexuais. Enquanto, entre a chamada "população em geral” de 15 a 49 anos, a taxa de incidência é de 19,5 casos a cada 100 mil habitantes, a população gay e HSH contabilizaria 226,5 por 100 mil.
Desde o surgimento da aids, o movimento glbt batalhou para descaracterizá-la como doença gay. O título "paciente zero", atribuído a um comissário de bordo canadense que teria disseminado a doença em São Francisco, foi duramente criticado. Por anos, o perfil da doença foi mudando, o conceito dos "grupos de risco" foi perdendo a força e o hiv/aids deixou de ser a doença de drogados, gays etc.
De alguns anos para cá, depois de um crescimento considerável de casos de contaminação entre heterossexuais (na segunda metade do anos 90), as autoridades de saúde pública voltaram a chamar a atenção para os novos casos entre jovens gays. Em 2002, um surto de sífilis e gonorréia entre jovens homossexuais de Nova York alarmou as autoridades para o que viria pela frente e hoje se constata em números ainda imprecisos: os gays são novamente um grupo relevante no que respeita os novos contágios de hiv, com aumento de número de contaminados que varia de 70 a 85 % dos novos casos.
Com o surgimento dos arv's, as pessoas começaram a relaxar quanto à prevenção (afinal, o diagnóstico hiv+ não é mais uma sentença de morte, right?). Logo que começaram as notícias sobre os bug chasers, a volta do barebacking já era percebido até mesmo nas produções pornográficas gays, que desde os anos 80 eram um exemplo até mesmo para as produções heterossexuais pois todos os atores usavam camisinha ao menos nas cenas de penetração e não havia contato oral com o esperma. Hoje, as produções de barebacking são numerosas e já há um caso na Inglaterra onde alguns atores se contaminaram durante a produção de um filme. A ciência andou algumas casinhas para frente, mas o comportamento das pessoas mostra que estamos andando algumas casinhas para trás!
Obviamente, a luta contra o estigma de doença gay visava principalmente rechaçar o discurso do establishment moralista-religioso de igrejas cristãs e entidades pró-família blá blá blá, segundo o qual a doença seria um castigo pelo comportamento diabólico, anti-cristão blá blá blá. Uma coisa é um fato concreto: os gays são mais hedonistas e buscam o prazer sexual de forma mais intensa e inconsequente em saunas, quartos escuros etc. Outra coisa, é afirmar que a doença é um castigo divino e que os gays estão condenados ao inferno blá blá blá, até por que o que se poderia falar das lésbicas? Elas não são tão relevantes nas estatísticas porque seu pecado é menos grave? E as mulheres e crianças da África subsaariana, são condenadas pelo fato de serem negras e inocentes? O argumento religioso é uma piada, claro...
Portanto, vale ressaltar o seguinte: os novos casos estão concentrados em jovens gays que não testemunharam o terror causado pela doença nos anos 80 e início dos 90 (os casos entre gays mais velhos está caindo); adolescentes gays não procuram atendimento médico na rede pública por medo de preconceito; o surgimento dos arv's está encorajando a prática de sexo inseguro; entre os heterossexuais, as meninas respondem pela maioria dos novos casos.
Uma informação importante é que se prevê uma queda considerável na produção de novos medicamentos contra o hiv/aids. Depois do boom que testemunhamos nos últimos 15 anos, a perspectiva de grandes novidades é muito pequena e não se sabe no que isso pode resultar num prazo médio-longo. Os laboratórios já estão lucrando e não há novas grandes linhas de pesquisa que dêem esperanças de uma verdadeira cura.
Todos devem aderir aos meios de prevenção. Transar sem camisinha não pode ser prova de confiança e amor nem uma fonte de prazer imediato. Sexo sem camisinha pode ser bom, mas sem hiv é melhor!
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Enquanto isso em Roma...
O Papa Bento XVI, o papa do novo milênio, prega contra o uso da camisinha e o estilo de vida dos homossexuais...
A decadência moral, religiosa e política da igreja católica será corrigida com essa postura de sua autoridade máxima?
quarta-feira, 11 de junho de 2008
Lost Boys+

domingo, 1 de junho de 2008
Choque de galáxias

quarta-feira, 14 de maio de 2008
escolhas

Conversamos longamente sobre nosso processo de separação, encontros e desencontros. Mas o que foi mais esclarecedor mesmo, ao menos para mim, foi como fiz escolhas na vida das quais de alguma forma me arrependo hoje -- ou simplesmente não compreendo porque fiz tais escolhas e escolheria diferente se pudesse voltar atrás E teria escrito a história da minha vida de outra forma, o que logicamente excluiria o hiv da minha vida.
Bom, ficou claro como me sinto culpado por ter me separado dele daquela forma e por toda a dor que causei. Mas também me sinto culpado por ter me infectado e como uma simples escolha teria evitado isso tudo.
No restrito mundo de nossas carências, vivemos em função de necessidades muito básicas: carinho, amor, atenção, afeto, poder etc. À medida que amadurecemos, essas necessidades mudam de cor, nome e forma, mas continuam sendo necessidades muito básicas. Não vamos além dessas necessidades, apenas sofisticamos a maneira como as expressamos e apresentamos. E o ego tem um papel crucial na busca da satisfação dessas necessidades básicas. Damos nomes elaborados a coisas simples, vemos um castelo onde há uma barraca de campanha. Chamamos de amor o que não passa de um band-aid. E nos satisfazemos com o que atende superficialmente nossos sentidos e nossas expectativas mais imediatas.
E as sequelas são igualmente equivocadas: uma desilusão "amorosa" não passa de uma chupeta que pacifica desejos sem preencher os anseios da alma, uma frustração não passa de um pequeno desafio ao nosso ego em busca de auto-afirmação.
Dimensionar o que é realmente importante é muito difícil. Fazer escolhas conscientes e arcar com as consequências das mesmas é mais difícil ainda. Aceitar o impacto dessas escolhas é quase impossível quando isso se traduz num novo modo de se viver, relacionar e poder fazer novas escolhas.
Tudo na vida traz um aprendizado. Os relacionamentos são o laboratório mais importante de que dispomos. O hiv é um dos resultados mais difíceis de se lidar e superar.
Fazemos escolhas; deveríamos arcar com as consequências. O difícil é ir além disso tudo e ver que escolhas são feitas através de nós, que cada desvio em nosso caminho, cada desafio inesperado não é um castigo ou uma reprimenda divina ao nosso comportamento, mas apenas um pequeno nó a ser desfeito conscientemente -- independente das consequências que ele possa ter.
Choice is the essence of what I believe it is to be human.
Liv Ullmann
quinta-feira, 8 de maio de 2008
Stephen Fry: HIV & Me
Em seu documentário produzido pela BBC, Stephen Fry mostra a realidade atual do hiv/aids no Reino Unido e no mundo. Além de dados estatísticos sobre o aumento do número de infecções entre heterossexuais e jovens gays (que acreditam que o pior que pode acontecer é terem que tomar um comprimido por dia!!), ele mostra a realidade de quem convive com o vírus há mais de 20 anos, vai à África do Sul ver de perto a política governamental no combate e no tratamento do hiv, revisita Uganda e São Francisco, visita hospitais e conversa com médicos e ativistas sobre acesso a novos medicamentos e campanhas de prevenção.
Entre depoimentos esperançosos, histórias tocantes e muita reflexão sobre o por quê de tantos novos casos a cada ano, o documentário desmistifica a crença de que com os medicamentos o hiv deixou de ser um problema -- mas também mostra como hoje o diagnóstico hiv+ não é mais uma sentença de morte dolorosa e sofrida.
Dentre alguns momentos realmente emocionantes do documentário, fiquei especialmente tocado pelas mães hiv+ de Uganda. Lá, elas fazem um livro de memórias para seus filhos, uma espécie de diário com fotos, mensagens estimulantes, histórias familiares e tudo que elas gostariam que os filhos soubessem já que elas não estarão mais com eles nem os verão crescer. Difícil de acreditar, mas o Memory Book feito por essas mães com tanto carinho e resignação é a forma que elas encontraram de estarem presentes na vida de seus pequenos depois que a aids der cabo de suas próprias vidas. Uma frase que aparece num desses livros diz assim: "você é responsável pela sua vida e pela vida de seu irmão". Vai dormir com esse barulho...
Fry ficou chocado com o preconceito sofrido pelos hiv+ e como os estigmas da doença ainda criam uma barreira de ignorância entre os britânicos (e no resto do mundo também, claro). Uma jovem e linda moça hiv+ fala de sua tristeza por acreditar que viverá o resto de seus dias sozinha (já que nenhum homem terá coragem de topar a parada ao seu lado) -- o que ele chama de "crise social do hiv", agora mais grave do que a "crise médica" já que as enfermarias especializadas deixaram de acumular dezenas de doentes esperando a morte.
Uma senhora hiv+ que diz em suas palestras para adolescentes que a cara do hiv é a "vovozinha sentada ao seu lado no trem", casos milagrosos de crianças que nasceram com o hiv e conseguiram sobreviver até as primeiras terapias anti-retrovirais garantirem uma vida quase normal, histórias trágicas de quem criou resistência aos medicamentos existentes, casais sorodiscordantes e crianças hiv- nascidas de pais ou mães hiv+. A dureza da realidade sempre amenizada com um pouco de esperança.
Fry ainda conclui que as campanhas devem incentivar as pessoas a fazerem o exame anti-hiv (1/3 a 1/2 dos britânicos hiv+ não sabem de sua condição) e enfatizar a importância da prevenção sem reforçar os estigmas da doença. Mais e mais pessoas são infectadas todos os anos e não lhes faltam informação -- apenas consciência.
quarta-feira, 7 de maio de 2008
hiv e internet
Um fator interessante é a amnésia cultural sobre a epidemia, já que os jovens de hoje não sofreram o impacto dos primeiros anos da aids e iniciaram a vida sexual na era dos ARVs. Outro fator importante, é que os jovens não estão fazendo exame de hiv -- e a maior parte das infecções é causada por pessoas hiv+ ainda nos primeiras semanas de infecção, quando ainda acreditam estarem negativas e com a carga viral muito alta. Após o diagnóstico, os hiv+ deixam de ter sexo desprotegido com parceiros hiv- ou que desconheçam seu status e muitos procuram outros hiv+ como parceiros sexuais. E muitos homens hiv- acreditam que a prática de sexo anal desprotegido é segura (ou oferece menos risco) se desempenharem o papel ativo na relação.
Como a internet facilita o encontro entre pessoas que buscam a mesma coisa, pulando as etapas normais de uma aproximação (e, na minha opinião, criando uma imagem ilusória daquele que está do outro lado), o sexo casual tornou-se mais comum e mais casual.
A intensificação da atividade sexual dos homens gays aumenta a chance de vacilos na prevenção de DSTs. Um grupo de jovens gays de 20 anos teriam em 1995 2,39% de se infectarem. Em 2005, esse número aumentaria para 30% !!! E em 2015, quando chegassem aos 40 anos, 40% seriam hiv+. Ou seja, a internet não faz com que as pessoas assumam mais riscos, mas simplesmente elas fazem mais sexo e acabam se expondo mais.
O que vem sendo feito até agora para ampliar a consciência dos riscos de contágio e da importância da prevenção tem se mostrado ineficaz. É preciso encontrar uma maneira de abordar os internautas gays para educá-los sobre meios de contágio, a importância de realizarem o exame de hiv, de usarem o preservativo e sobre outras DSTs, como herpes, sífilis, hpv e hepatite C.
G. I Jonny -- Campanha online da BBC
voltada para jovens de 16 a 24 anos
terça-feira, 6 de maio de 2008
Jogo: Pos or Not
Joguei um pouco e me flagrei com meus próprios preconceitos. TODOS temos um longo caminho pela frente nesta luta. É importante saber as histórias daqueles que convivem com o hiv -- e saber que não estou sozinho nesta.
domingo, 27 de abril de 2008
Time to Deliver - Universal Action Now
O vídeo abaixo é da conferência de 2006 e foi inspirado na visão do que o hiv/aids serão daqui a 25 anos se essas ações não forem tomadas desde já, fazendo uma projeção utópica de 25 anos no futuro, quando os maiores problemas da humanidade parecem resolvidos (água, educação, o câncer...).
Encontrei este vídeo pelo site da AVERT, que reúne posters, fotos e vídeos sobre hiv/aids. A galeria de posteres mostra como as campanhas evoluíram em muitos aspectos, ampliando o foco de acordo com a evolução da pandemia com mensagens cada vez mais complexas e abrangentes, focalizando problemas específicos como a transmissão vertical, minorias raciais e sociais e direitos humanos em geral. Mas, desde cedo, a conscientização sobre meios de contágio, a importância crucial da prevenção pelo uso de preservativos, a luta contra o preconceito e a desestigmatização dos chamados grupos de risco já estavam presentes nas mensagens de conscientização.
the wall
É automático, não tenho controle. Nem adianta tentar usar fórmulas de O Segredo e pensar positivamente porque não rola. E olha que estou falando de troca de olhares, nem um passo além disso eu permito que aconteça. Tudo bem que sempre fui muito tímido e só dava algum passo muito raramente, sempre em tiros certeiros. Mas agora eu nem me permito jogar com a sedução, porque se a coisa avançar para algum contato direto, eu terei medo de me interessar pelo cara. Se eu me interesso por ele e vice-versa, a coisa pode seguir mais adiante e eu vou ter muito medo de falar de meu status e ser rejeitado. Então, porque não evitar logo todo esse aborrecimento e abortar a missão logo de cara?
Um amigo me sugeriu a seguinte estratégia: vou seguindo naturalmente e, num momento oportuno, se for o caso, jogo o assunto sem falar particularmente de mim mesmo para ver a reação do cara. Daí, posso saber se sigo mais adiante ou não... porra, além de me dar preguiça de nadar para morrer na praia, não sei em que ponto teria segurança de me expor. Quando exatamente eu teria a coragem de tocar no assunto? Vou ter que esperar o ponto de não-retorno? Vai parecer que estou cozinhando o cara....
Afora isso, eu já tentei essa estratégia antes e não consegui perceber nenhuma reação que me servisse. E mais: mesmo que o assunto fosse abordado ao ponto de o cara falar "imagina, isso não pode ser um impedimento para fulano se relacionar com beltrano", uma coisa é falar de terceiros -- outra é lidar com o problema diretamente.
Como já disse antes, não julgo ninguém por ter esse tipo de reação. Eu mesmo não sei como lidaria com essa questão há 2 anos. Mas agora que estou na posição mais desfavorecida, ainda não consigo agir de maneira natural e ter segurança para avançar e me expor ao risco de ser rejeitado.
Se fosse um sexo casual e eu tomasse todos os cuidados para não expor o cara, eu teria necessariamente que falar antes sobre meu status? No caso de uma paquera, se eu chegasse a transar com o cara sem falar antes, como ele reagiria se eu falasse depois?
Começar um relacionamento nunca é fácil. Neste contexto, parece-me impossível.
sexta-feira, 25 de abril de 2008
positive vibrations
O medo de saber é grande. Todos sabem o quanto se expuseram e quantos riscos correm a cada relação que não seja 100% protegida -- e quase ninguém tem relações 100% protegidas, do início ao fim (conheci poucas pessoas que faziam sexo oral com preservativo).
Mas fazer o exame é essencial. Eu fazia todos os anos, 2 vezes ao ano. Poucas vezes tive medo do resultado. Quando saiu positivo pela primeira vez, eu não esperava e não quis acreditar. Fui surpreendido e neguei até onde pude. Pesquisei todos os sites negacionistas e procurei uma saída para aquela situação. Pensei em me matar, pensei em fazer 1000 besteiras.
Um ano e meio depois, não posso dizer que seja fácil conviver com essa realidade. Nem vou dizer que estou tranquilo e que minha vida não mudou em nada por causa do hiv. Mas posso afirmar: é melhor saber do que ficar na ignorância, para se proteger e para proteger a quem se ama.
Para aqueles que tiveram o diagnóstico recentemente, posso dizer o seguinte: não é o fim do mundo. Muitas coisas mudam, com certeza, mas não é o fim do caminho. Há muitas maneiras de se lidar com o hiv que não necessariamente nos colocam a cabeça numa guilhotina. Há vida após o diagnóstico do hiv!
Mudei muito minha maneira de ver a vida e, principalmente, o futuro. Já fui muito pouco prudente e inconsequente nas minhas relações e na minha maneira de lidar com a minha vida. Hoje sou um pouco mais criterioso: não posso expor ninguém sem que ele saiba de meu status, não posso me expor demais, não posso me dar ao luxo de seduzir e me envolver com qualquer um... Não faço planos de longo prazo, mas nunca fiz. Sempre fui meio incrédulo com relação ao futuro (meu e da humanidade). Mas ainda tenho alguns sonhos e aspirações que pretendo realizar: viagens, experiências, conquistas...
Ter encontrado (mesmo que virtualmente) algumas pessoas que vivem com este mesmo problema tem me ajudado a lidar com isso tudo. Ler sobre a experiência alheia sempre ajuda. Os relatos podem ser inspiradores, assim como também podem ser um balde de água fria. Mas sempre é bom saber que não estamos sozinhos. Outras pessoas também sofrem as mesmas angústias, questionam as mesmas coisas, têm os mesmos medos.
E, vamos combinar?, no mundo em que vivemos hoje, ser soropositivo num país como o Brasil ou em qualquer outro lugar onde haja acesso a tratamento para controlar o hiv, não é o pior que pode acontecer. Imagino a dor dos que sofrem as mazelas da aids em África, por exemplo, onde já há tão pouco para aplacar tanta miséria material e humana, tanta fome, tanta sede, tanta violência... e para piorar, a aids!
E a ironia disso tudo: uma doença que se transmite pelo contágio íntimo... o que deveria ser fonte de prazer e expressão de amor passa a ser a causa de tanto medo e tanta dor. O que deveria edificar as relações e firmar os laços entre as pessoas, pode ter o efeito oposto.
Com o hiv eu aprendi a me amar e me respeitar. É fácil sim seduzir e sair com alguém sem nenhum compromisso. É fácil enganar a baixa auto-estima com conquistas baratas e satisfação efêmera. O difícil é construir relacionamentos baseados na confiança, no amor sincero, na admiração mútua e na entrega.
E este é o grande desafio agora: para ter um relacionamento, o grau de confiança, sinceridade e do respeito deverá ser muito maior. Pelo menos é como sinto agora.

